Crítica: Mulher Maravilha

Algumas pessoas insistem em acreditar, seja por convicções político ideológicas ou apenas por desconhecimento puro e simples, que quando se pensa em grandes personagens as mulheres perdem feio dos homens. Ledo engano. Se isto fosse verdade, Norma Desmond (Gloria Swanson em Crepúsculo dos Deuses), Leia Organa (Carrie Fisher em Guerra nas Estrelas), Clarice Starling (Jodie Foster em O silêncio dos inocentes) ou Scarlet O´Hara (Vivian Leigh em E o vento levou), não seriam tão memoráveis e ícones absolutos da sétima arte. E entre elas está talvez o maior e mais completo personagem de todos os tempos.

Mas pelo Cinema se tratar em grande parte de um negócio que visa lucros cada vez maiores, diversas lógicas nem sempre muito ortodoxas foram surgindo. Uma delas era a que filmes de ação protagonizados por mulheres estariam fadados ao fracasso, e tudo por que produções do gênero que poderíamos contar nos dedos não alcançavam números expressivos de bilheteria, quando em comparação as dezenas de comédias românticas conseguiam na média bons resultados. Qualquer um que entenda um pouco de matemática sabe quem sairia vencedor deste embate percentualmente. 

Nem o gênero de super heróis escapou desta noção mercadológica equivocada, e por este motivo o lançamento de Mulher Maravilha é tão importante: para provar que um filme de ação com uma protagonista feminina é capaz de se tornar um grande sucesso se tiver uma boa história, e para lembrar às mulheres que independente do gênero cinematográfico elas sempre foram as rainhas das salas de cinema. 


Para o Universo Cinematográfico da DC, o filme da Mulher Maravilha tinha uma missão que muitos consideravam ingrata, haja visto os resultados medianos de público e crítica para O Homem de Aço, Batman Vs Superman e Esquadrão Suicida: encontrar o tom correto para a aventura, que se distanciasse do pessimismo e obscuridade de Zack Snyder - diretor dos filmes de Batman e Superman - mas que ao mesmo tempo fosse diferente da estética colorida e bem humorada que faz sucesso nos filmes da Marvel. Patty Jenkins (Monster - desejo assassino) não se intimidou com a missão, e o resultado é um filme que faz jus à importância da personagem e equilibra perfeitamente a narrativa épica de origem, grandes cenas de ação e um bem dosado bom humor.

Apesar da personagem ter sido apresentada em Batman Vs Superman, muito pouco daquela guerreira implacável aparece na primeira metade do filme, que se concentra em apresentar ao público quem era e como surgiu aquela mulher tão poderosa. Mulher Maravilha consegue com sucesso desenvolver a história da Amazona sem distanciar-se do que já ficou estabelecido nos filmes anteriores, e não vai confundir ninguém que não tenha visto as outras produções. É um filme que funciona bastante individualmente, e isto talvez seja sua maior qualidade.

Gal Gadot coloca por terra de vez quem não acreditava que ela seria capaz de trazer a Amazona à vida nas telas. Sua Diana Prince é ao mesmo tempo doce e rude, ora ingênua ora perspicaz. E a atriz equilibra muito bem todas estas facetas. Embora em algumas sequencias dramáticas ainda se faça claro que ela tem limitações, isto cai no esquecimento quando as coreografias espetaculares das cenas de luta recomeçam - e ver a personagem batalhando com sua espada, o escudo e o laço da verdade transporta qualquer um diretamente para as páginas dos quadrinhos. Não apenas Diana, mas todas as Amazonas são sensacionais, principalmente Hipólita (Connie Nielsen) e Antíope (Robin Wright). O Steve Trevor de Chris Pine passa longe de ser apenas o interessa romântico da protagonista. O personagem tem todo um arco muito bem construído pelo roteiro, e a performance do ator só favorece o resultado final, a ponto de que ele seja tão interessante quanto a protagonista. 

Temiscira, a Ilha Paraíso, está sensacional no filme, visual e conceitualmente. Boa parte disso é graças ao excelente roteiro de Allan Heinberg (Grey´s Anatomy, Gilmore Girls) que trabalha muito bem toda a extensa mitologia por trás da origem da Terra das Amazonas (de forma semelhante ao que Peter Jackson fez em seu prólogo em O senhor dos anéis: a sociedade do anel) e aos excelentes efeitos visuais da Weta Digital. Até mesmo o elo mais fraco do filme, o vilão Ares, não fica devendo visualmente. A equipe técnica teve um cuidado especial com o laço da verdade, que é uma extensão da Mulher Maravilha tanto quanto o escudo é do Capitão América, e ver Diana utilizando o icônico acessório de forma perfeita nas lutas faz o coração de qualquer fã vibrar.

Mulher Maravilha era um dos filmes de heróis mais esperados de todos os tempos, e posso dizer que a espera valeu a pena. É um novo e empolgante capítulo das adaptações cinematográficas de quadrinhos. E agora que temos a trindade mais do que apresentada no cinema, que venha a Liga da Justiça!

Cotação: ****

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