Crítica: Festa no Céu

Não há limites para a genialidade de Guilhermo Del Toro. Depois de encantar o mundo com O Labirinto do Fauno e fazer a alegria dos nerds com Círculo de Fogo, parecia que o mexicano teria que rebolar bastante para conseguir chamar atenção outra vez. Mas felizmente um gênero que saiu da periferia em Hollywood e cada vez mais atrai cineastas autorais - desde Tim Burton (O Estranho Mundo de Jack, A Noiva Cadáver), George Miller (Happy Feet, o Pinguim) e Gore Verbinski (Rango) - também despertou o interesse deste artista incansável.

Festa no Céu (The Book of Life, no original) é uma grande homenagem ao folclore e a cultura mexicanas, e com poucos segundos se projeção já se pode entender o motivo de Del Toro ter agarrado a produção do longa com unhas e dentes. O animador Jorge R. Gutierrez utiliza seu traço único para contar uma história de três mundos que se unificam em um dos mais importantes feriados do país, o dia dos mortos. 


Na aventura, Manolo, Joaquim e Maria são amigos inseparáveis. Sua devoção um ao outro será posta à prova quando as duas criaturas que dominam os mundos espirituais, La Muerte e Xibalba, fazem uma aposta sobre o destino dos jovens no futuro; enquanto La Muerte, senhora do mundo dos lembrados, acredita que Manolo conquistará Maria com sua bondade e inocência, Xibalba, o senhor da terra dos esquecidos, considera que a coragem e força de Joaquim farão a diferença. Mas embora La Muerte jogue limpo, para Xibalba não há limites para conseguir a vitória. Caberá a Manolo encontrar sua verdadeira vocação para salvar Maria, Joaquim e todos da sua vila de um terrível destino: o esquecimento eterno.

O visual de Festa no céu é arrebatador. A animação é vibrante, colorida, e os personagens são cativantes e muito engraçados. Gutierrez e Del Toro parecem conseguir o impossível: tratar de um tema tão complicado como a morte de forma suave e poética, com uma narrativa dinâmica que não perde o ritmo em momento algum. A apresentação dos mundos fantásticos é realizada de forma primorosa, e fica difícil não se emocionar nas sequencias mais sentimentais, tudo conduzido sem apelar para o melodrama, amparado no excelente script de Gutierrez e Douglas Langdale (animador com experiência em trabalhos menores na Disney e Dreamworks).

Na parte técnica, a trilha sonora de Gustavo Santaolalla acaba sendo uma das maiores surpresas do filme. O músico acostumado a compor seus acordes para grandes dramas como 21 Gramas, Babel e Biutiful faz aqui um trabalho belíssimo, explorando de maneira inteligente os ritmos latinos sem esquecer da simplicidade em melodias e canções. Festa no Céu depende demais da musicalidade para sua trama funcionar, o que demonstra um trabalho exaustivo de músicos e orquestra para conseguir o tom ideal da narrativa. Sensacional.

Mesmo sem a Pixar na concorrência, o cinema de animação demonstrou sua fonte inesgotável de criatividade e qualidade em 2014. Se vai ter festa no ceú ainda não podemos saber, mas por aqui na terra quem faz a festa é o fã de animação. E que venham muitos outros anos como esse.

Cotação: ****

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