Crítica: Guardiões da Galáxia

Houve uma época em que filmes de super heróis eram uma aposta arriscada. Embora atualmente esta máxima tenha invertido - com os super seres abocanhando bilhões nas bilheterias -, as produções baseadas em HQs raramente alçam vôos mais altos no quesito inovação, e preferem agarrar-se ao óbvio ululante que costuma agradar a maior parte do público. 

Mas a Marvel não estava querendo juntar-se a este bolo quando decidiu tornar-se um estúdio de cinema, que hoje conta com a força de marketing da poderosa Disney. Homem de Ferro, filme que adaptava para os cinemas as histórias do vingador dourado que era um personagem da segunda classe da editora, tomou Hollywood e o mundo de assalto, transformando Robert Downey Jr na estrela mais bem paga da atualidade e colocando o herói no mais alto escalação nas histórias e eventos da Casa das Idéias. Não bastasse esse começo arrasador, as pretensões eram maiores: a Marvel queria consolidar todo o seu Universo nos cinemas, e construiu peça por peça um maravilhoso espetáculo chamado Os Vingadores. Não satisfeita, mostrou que o objetivo era, mesmo, redefinir a forma de contar histórias de super heróis nas telas grandes. Guardiões da Galáxia chega para provar que eles não estão brincando em serviço.


Se o Homem de Ferro era um ilustre desconhecido para as audiências mundiais quando seu filme foi lançado, os Guardiões praticamente podem ser considerados novidade. O grupo de heróis desajustados, que existe desde meados da década de 60 nos quadrinhos, nunca teve grande fama, andando até mesmo sumido das páginas dos gibis por alguns anos. Foi a reformulação recente na equipe que chamou a atenção do Marvel Studios para as possibilidades que um filme traria: explorar de forma mais concisa o universo cósmico da editora - levemente apresentado em Os Vingadores - e criar novas pontes para outras criações de Stan Lee, Jack Kirby e outros mestres.

Guardiões da Galáxia, antes de uma adaptação de quadrinhos, é uma ópera espacial como não se via há tempos. E não apenas pelo ritmo de aventura, mas pelo visual arrojado e interessante dos mundos apresentados. Não poupou-se criatividade - e pixels - para criar alguns dos cenários mais belos do cinema de ficção recente, que só não são mais interessantes que os personagens que o habitam.

Peter Quill, Gamora, Drax, Groot e Rocket Racoon são espetaculares em cada frame de Guardiões da Galáxia. Funcionam tão bem sozinhos quanto reunidos - e os motivos para sua união são muito bem conduzidos pelo roteiro eficiente e a direção de James Gunn, um patinho feio de Hollywood que vai abraçar a fama com merecimento depois do inevitável sucesso que seu filme fará. Desde sua primeira aparição, o Senhor das Estrelas de Chris Pratt conquista o público, seja pelo carisma do engraçado ator, seja pelo repertório musical que o acompanha, difícil de não te fazer cantarolar. Pratt agarra com força a oportunidade de se tornar um astro e acerta firme no alvo. Não menos interessantes são Zoe Saldana e Dave Bautista, que trazem consistência a Gamora e Drax. Ao lutador devemos dar ainda mais créditos, pela pouca experiência que não limitou a sua capacidade de entregar um personagem intenso e engraçado nas mesmas medidas. Mas os verdadeiros rouba cenas do filme são as criaturas digitais Groot e Rocket. O primeiro ganha a voz canastrona de Vin Diesel que lhe cai como uma luva, e garante as sequencias mais emocionais. Pois é, se nunca pensou que Vin Diesel poderia fazer você chorar, vire a página. E o segundo, temos que dizer, é mais um gol de Bradley Cooper, um ator que se mostra cada vez mais versátil. Rocket é debochado, sem vergonha e imensamente carismático. 

Os demais coadjuvantes, assim como os vilões, também não fazem feio. Lee Pace entrega um Ronan amedrontador, e menos pastiche que os algozes de filmes anteriores. Karen Gillan tem pouco tempo como a Nebulosa, mas faz ao menos uma sequencia eletrizante de combate em seu encontro com Gamora. Michael Rooker parece divertir-se como o mercenário Yondu. E Benício Del Toro, Gleen Close e John C. Reilly são os típicos elos de ligação com futuros projetos - todos tem relevância na história, mas claramente parecem estar ali para definir os rumos que a aventura pode tomar em suas possíveis - e já planejadas - sequencias. Um detalhe importante: o visual de todas as criaturas alienígenas e a maquiagem dos atores está sensacional.

Sem um pingo de pena da rival DC, que ainda patina para colocar sua prata da casa nos cinemas, a Marvel com Guardiões da Galáxia dá mais um passo gigantesco para transformar a tela em um imenso gibi. Diversos easter eggs são apresentados - e desta vez nem precisamos aguardar a cena pós-créditos (que por sinal deve chocar muitos pela ousadia). Vemos no filme a Tropa Nova, Luganenhum - uma cabeça de um ser cósmico que se torna uma base espacial - e um maior desenvolvimento da figura de Thanos, o titã louco que se torna o elo central de todas as principais tramas dos sucessos Marvel até aqui. Tudo parece estar sendo montado para que uma grande saga se concretize, bem do jeito que os fãs mais gostam quando se embrenham nas páginas de HQs e Graphic Novels.

Fosse pela pouca fama dos personagens ou mesmo por ousadia de Gunn, Guardiões da Galáxia se beneficia, exatamente, por não precisar seguir uma cartilha para agradar ninguém. O filme vai passando de forma tranquila, sem amarras, com uma trama simples e ágil, do jeito que uma boa aventura deve ser. As cerca de duas horas de projeção passam voando, e quando termina, você fica com uma vontade imensa de assistir mais. Pode ter certeza que o quinteto de heróis vai dar o que falar por muito, muito tempo.

Parafraseando Groot em um dos momentos chave da aventura, sim, Nós somos Groot. Mas dizendo melhor, sim, Nós somos Marvel. E fica aqui o meu obrigado ao estúdio que está tornando o cinema ainda mais divertido.

Cotação: **** 

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