Crítica: O Homem Duplicado

José Saramago é um escritor sensacional. Além de desenvolver histórias e personagens como ninguém, sempre consegue provocar no leitor sensações extremas, não necessariamente agradáveis. Quem viu Ensaio sobre a Cegueira e reclamou do exagero de violência de algumas sequencias do filme, ficaria ainda mais impressionado com o romance que o originou, de difícil assimilação seja pela complexidade das ideias do escritor, seja pelo português arcaico utilizado no texto. 

Não é preciso dizer que uma adaptação da obra de Saramago nunca irá render um filme padrão para o grande público, daqueles que faz a platéia sair saltitando da sala comentando essa ou aquela cena mais movimentada. É, sim, cinema para refletir e pensar por muito tempo depois de terminada a sessão. E não necessariamente vai divertir; na verdade, esse nem é seu objetivo principal.

O Homem Duplicado entra nesta seleta lista de adaptações cinematográficas da obra do escritor Português tendo como ingrediente adicional a direção do Canadense Denis Villeneuve, dos excelentes Os suspeitos e Incêndios, indicado ao Oscar de filme estrangeiro em 2011.


Villeneuve é um diretor visionário, e seus filmes destacam-se pelo tratamento visual arrojado e a qualidade do trabalho dos atores. E é empolgante ver Jake Gyllenhaal - que repete a parceria de Os suspeitos - atuando de forma tão intensa, em um trabalho que remete seus bons momentos em filmes como O segredo de brokeback mountain, Soldado Anônimo e Zodíaco. 

O filme conta a história de Adam (Gyllenhaal), um professor de história que leva uma vida simples, dividindo seu tempo entre o trabalho e a namorada (Mélanie Laurent), até que, enquanto assistia um filme, descobre que existe um homem exatamente igual a ele. Perturbado pela inesperada descoberta, ele tenta desvendar tudo o que pode sobre essa pessoa, que acaba entrando em sua vida e alterando tudo o que ele sabia sobre si próprio. 

Villeneuve aproveita a premissa genial de Saramago para encher seu filme de metáforas e críticas pesadas à sociedade atual. O filme trata de questões como a perda de identidade numa sociedade que valoriza demais a individualidade. Não por menos, o lado emocional esta presente, apresentando conflitos e desejos reprimidos que podem tomar conta de nosso dia a dia, se nos deixarmos envolver por eles. É um ensaio sobre a racionalidade versus a subjetividade, bem ao estilo de Saramago.

Obviamente uma obra que utiliza de maneira tão concisa a força de seu texto não poderia passar em branco plasticamente. A natureza expressionista do trabalho de fotografia, então, se destaca, com o uso de sombras como forma de causar desconforto no espectador, ao mesmo tempo em que se revela a verdadeira natureza do protagonista. 

O Homem Duplicado não é uma experiência cinematográfica de simples digestão. Ele gera diversos pontos de vista, diversas interpretações. Ninguém disse que cinema, para ser legal, precisa ser fácil.

Cotação: ****

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