Crítica: Malévola

Um dos calcanhares de aquiles do Cinema Hollywoodiano é a tentativa - quase sempre frustrada - de emplacar um filme solo de uma heroína. E neste ínterim, Angelina Jolie é uma das mais bem sucedidas atrizes na atualidade. Mas embora tenha emplacado Lara Croft em dois longas (Tomb Raider e Tomb Raider - a origem da vida) e surpreendido com a espiã Evelyn Salt em Salt, além de outros pequenos sucessos em que dividia as telas com pares do sexo masculino (Sr e Sra Smith e O procurado), faltava o grande personagem que marcasse de vez esta trajetória.

E eis que a Disney resolve tentar a empreitada não com uma heroína, mas sim com uma vilã. Não somente uma vilã, mas uma das figuras mais emblemáticas dos clássicos de animação do estúdio. Malévola chega com duas missões difíceis: consagrar Jolie como heroína dos filmes de verão e recontar uma das suas mais apaixonantes histórias para um novo público.


Pode-se dizer que houve um quase atingimento da meta em ambas as frentes. Embora tenha defeitos, Malévola é uma aventura visualmente deslumbrante, tanto quanto sua protagonista, que mesmo com longos chifres negros e uma prótese pontuda no rosto, não deixa em momento algum de iluminar a tela. 

O filme já começa desconstruindo tudo que sabemos sobre o clássico A  Bela Adormecida. Em uma terra mágica em que os homens dividem seus domínios com os Moors - criaturas mágicas como duendes, elfos e fadas -, um Rei inescrupuloso e sedento de poder resolve lançar-se contra os seres místicos, temendo que um dia eles sejam uma ameaça. Malévola, a mais forte das fadas, põe-se de frente ao seu povo e lidera uma batalha em que o Rei é derrotado de forma humilhante. No entanto, um de seus conselheiros (Sharlto Copley), que na infância tinha sido próximo de Malévola, parte o coração da fada ao enganá-la visando impressionar o Rei e herdar a coroa. Possuída por sua raiva e desejo de vingança, Malévola ataca o antigo amor atingindo-lhe no mais profundo do coração: jogando a famosa maldição na filha Aurora (Elle Fanning, graciosa) que ao chegar à adolescência, fincaria o dedo na agulha de uma roca de fiar, caindo em sono profundo.

Malévola, na nova versão de Robert Stromberg, passa de vilã à uma heroína trágica, possuída pelo ressentimento e pela dor. O talento de Jolie é a grande sacada do filme, que rende sequencias graciosas quando a atriz contracena com sua filha, Vivienne Jolie-Pitt, arrancando gracejos das moças na platéia. Malévola, aliás, nitidamente visa o publico feminino, principalmente as adolescentes. Mas a história é movimentada o bastante para não entediar a audiência masculina.

Não fosse o roteiro um pouco raso que não desenvolve bem os personagens, mesmo aqueles mais graciosos da obra de origem - por exemplo, as três fadas madrinhas, relegadas a alívios cômicos, mesmo contando com atrizes do porte de Imelda Staunton e Juno Temple - e a curta duração (cerca de 90 minutos), Malévola seria uma aventura de fantasia que estaria um nível acima de grandes clássicos recentes do gênero. Se não supera Oz - Mágico e Poderoso, com certeza é superior ao burocrático Alice no país das maravilhas. 

Mas os problemas de roteiro acabam sendo pouco relevantes quando abrimos à mente e nos deixamos levar pelo mundo de fantasia repleto de detalhes e sutilezas desenhado com maestria por David Allday, Paul Laugier e Frank Walsh, que já haviam impressionado as plateias do mundo com os mundos fantásticos de filmes como John Carter, O Guia do Mochileiro das Galáxias e Inception. Também merece destaque o trabalho de maquiagem de Anna B. Sheppard, duas vezes indicada ao prêmio da academia (pelo intimista O Piano e a superprodução A Lista de Schindler).

Malévola continua o caminho da Disney nas adaptações em live-action dos seus grandes sucessos do passado. Vamos ver se Jolie consegue de vez espantar o estigma de que grandes mulheres não podem segurar filmes de ação e fantasia como protagonistas: não vai faltar material legal para os executivos brincarem no futuro.

Cotação: ***

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