Crítica: Círculo de Fogo

Guilhermo Del Toro ainda não havia tido a oportunidade de mostrar todo seu imenso talento para o grande público que lota os multiplexes no mundo. Nerd confesso, o cineasta até então havia entregue algumas adaptações de quadrinhos de orçamento modesto (Blade 2 e Hellboy), uma pequena obra-prima rodada no México, seu país de origem (O labirinto do fauno) e uma sequência de seu maior sucesso de público até então (Hellboy, o exército dourado). Por ser considerado um cineasta experimental, e, portanto, alternativo pela maioria, Del Toro ainda não popular o suficiente para atrair o interesse dos estúdios para grandes projetos.

Mas esta história começou a mudar com o convite de Peter Jackson para que o diretor assumisse a cadeira da adaptação de O Hobbit. Del Toro não apenas aceitou como foi responsável pelo primeiro tratamento do roteiro e por grande parte do visual das criaturas e dos novos personagens que vimos no novo filme. Entretanto, por causa das disputas judiciais que rolavam à época pelos direitos da obra que atrasaram o cronograma da produção, Del Toro foi obrigado a deixar o set por conflitos de agenda. A esta altura, já prestigiado com o sucesso de crítica e os prêmios internacionais de O labirinto do fauno, novos projetos se acumulavam no escritório do diretor, entre eles a adaptação do romance Nas montanhas da loucura (engavetado depois que a Fox anunciou a produção de Prometheus) e uma versão com atores para a animação Os Jetsons. Mas dentre todos eles, acabou na dianteira um sonho antigo que era a representação clara do lado nerd do cineasta: um épico moderno que colocasse frente a frente gigantescos robôs de combate contra monstros colossais. Assim nascia Círculo de Fogo.


Del Toro faz referência em seu filme a diversos aspectos da cultura oriental que tanto fascinaram também o ocidente, principalmente nas décadas de 80 e 90. As mais claras são os filmes de monstros como Godzilla e Doraemon; seriados de equipes de heróis como Jaspion, Changeman e até mesmo alguns mais contemporâneos como Power Rangers; e mangás e animes como Gundam, Battle Angel Alita e Neon Genesis Evangelion. Este último, principalmente: quem conhece a história de Evangelion irá reconhecer muita coisa do mangá de Yoshiyuki Sadamoto utilizada como inspiração para Círculo de Fogo.

No filme, quando a raça humana está a ponto de sucumbir frente ao ataque cada vez mais frequente dos Kaijis, gigantescos monstros que surgem de uma fenda aberta bem no meio do Oceano Pacífico, nossa última esperança são os Jaegers, robôs igualmente fabulosos e de alta tecnologia, controlados através da conexão neural com pilotos humanos. Dois destes pilotos, Raleigh Becket, um ex-oficial e piloto Jaeger que havia desistido da luta quando perdeu de forma trágica o irmão em um combate contra os Kaijis; e Mako, uma jovem japonesa que perdeu toda a família em um ataque Kaiji que arrasou Tókio, e foi criada como filha pelo autoritário Marechal Stacker Pentecost, o líder da resistência, terão que unir-se para pilotar Gipsy, um dos primeiros Jaegers de combate, em uma missão suicida com objetivo de selar para sempre a fenda e livrar o mundo do apocalipse.

Diferente da franquia Transformers, que perdia-se em não conseguir congregar excelentes efeitos especiais e um roteiro minimamente inteligente, Círculo de Fogo se sai muito bem nos dois fundamentos. O filme não é uma desculpa para efeitos mirabolantes: sua narrativa é simples mas concisa, sem reviravoltas complexas e desnecessárias. Del Toro não perde tempo tentando confundir a cabeça do expectador e tampouco parece preocupado em criar uma mitologia que permita ou facilite a criação de uma franquia cinematográfica; ele está apenas preocupado em contar uma boa história.

E que história! Empolgante e com um ritmo envolvente, Círculo de Fogo parece uma montanha russa de imagens e movimentos. Os efeitos especiais estão perfeitos, e mantendo-se o que foi visto até aqui, é muito provável que o filme seja o vencedor na categoria no próximo Oscar. Credenciais não lhe faltam: a Legacy Effects, responsável pela produção da maioria das tomadas com elementos gráficos que vemos no filme, foi responsável, dentre outros, por produções indicadas ao prêmio da Academia, como Homem de Ferro e Gigantes de Aço. Ambas, inclusive, devem ter sido excelentes laboratórios para os robôs extremamente verossímeis que Del Toro apresenta no filme, cujas batalhas coloca no chinelo a maioria dos combates "comprados" que temos visto no UFC nos últimos tempos...

Não bastasse a qualidade técnica dos efeitos especiais, o diretor também abusa de enquadramentos e tomadas perfeitas, com uma direção de fotografia mais uma vez inspirada do amigo Guilhermo Navarro, colaborador frequente em todas as obras do cineasta. A direção de arte do longa também é destaque: a certo ponto, fica difícil perceber a diferença entre o que é computação gráfica e o que são cenários e maquetes, dada a perfeição da interação entre os diversos elementos cênicos. Se pensarmos na evolução que o Cinema teve nos últimos anos, Círculo de Fogo, como vemos hoje na tela, seria inviável há poucos anos atrás.

O orçamento graúdo de superprodução deu ao diretor a chance de alguns agradinhos aos amigos. E é interessante constatar que a participação especial de Ron Perlman como o Gangster Hannibal Chau, que nas mãos de outro diretor poderia resultar em uma subtrama pastiche, em Círculo de Fogo tornou-se uma divertida interação com o comediante Charlie Gray, que complementa de forma condizente o foco principal da trama. Del Toro acertou também em contratar a japonesa Rinko Kikuchi, indicação do amigo Alejandro Gonzalez Iñarritu, com quem trabalhou em Babel. Belíssima, ela dá o toque oriental necessário à trama, e está perfeita como Mako. Idris Alba, a bola da vez em Hollywood, aproveita o bom momento e dá as caras em seu segundo blockbuster no ano (ainda tem Thor, o mundo sombrio pela frente, em que interpreta o guardião Heimdall).

Blockbuster com B maiúsculo, Círculo de Fogo é a cereja do bolo para fechar a temporada de grandes lançamentos de 2013 com estilo. E se Del Toro ainda precisava de um grande sucesso para assinar de vez a credencial de Steven Spielberg moderno, não falta mais nada. Que venham mais projetos desse nerd que ainda promete muita coisa boa para o público.

Cotação: ****

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