Crítica: Além da Escuridão - Star Trek

Quando J.J. Abrams foi o escolhido para comandar a cadeira de diretor do reboot de Star Trek, muita gente torceu o nariz. Até então mais conhecido por ser o criador da série fenômeno Lost, Abrams tinha no cinema a experiência como diretor apenas com o terceiro Missão Impossível, que, diga-se de passagem, havia conseguido reerguer a franquia que estava em baixa depois do péssimo segundo epísódio. Mas era exatamente seu envolvimento com a série dos náufragos que perturbava os fãs xiitas de Kirk, Spock e cia, que temiam que o estilo arrojado do diretor não combinasse com a estrutura clássica de ficção científica que a série ostentava desde a época em que era exibida na TV.

Mas eis que o filme chega aos cinemas em 1999, e para surpresa de iniciados (ou Trekkers, como eles preferem ser chamados) e não iniciados, tem tudo o que era necessário para agradar a ambas as partes: um roteiro bem escrito que desenvolve os personagens, muita ação, efeitos especiais impressionantes e bons atores repetindo o êxito dos intérpretes originais. Para completar, Abrams ainda conseguiu imprimir seu toque pessoal, levando o Universo do reboot para uma linha temporal paralela (e até colocando dois Senhor Spock convivendo conjuntamente para comprovar), o que lhe abriu possibilidades para maiores liberdades criativas. O resultado foi o renascimento da franquia e a volta da USS Enterprise para o calendário dos Blockbusters de verão, que culmina com este Além da Escuridão - Star Trek, a segunda - e talvez última - aventura da tripulação do Capitão Kirk com a direção de J.J. Abrams.


Mas o motivo da saída de Abrams não seria a desistência da Paramount de seguir em frente com a franquia (até aqui, o filme já havia arrecadado quase 300 milhões de dólares nas bilheterias mundiais). Fã confesso de Guerra nas Estrelas, Abrams foi sondado pela Disney após o estúdio finalizar a compra da Lucas Film e acabou sendo oficializado como o diretor Episódio 7, que será lançado em 2015. Por conflitos de agenda, será muito difícil manter o compromisso com as duas franquias espaciais, principalmente se Além da Escuridão confirmar seu sucesso e o estúdio apressar a produção de uma nova sequência. Os mesmos nerds que um dia quase colocaram a cabeça de Abrams a prêmio quando souberam que ele assumiria a franquia, hoje estão desesperados por saber de sua saída e na expectativa pelo nome de seu substituto. A vida tem mesmo as suas reviravoltas.

Voltando ao filme, não se pode dizer que houve economia de recursos para esta continuação. Tudo é maior em Além da Escuridão, e este ganho de escala se nota logo na sequencia de abertura, tão intensa e extraordinária quanto a do filme anterior - mas que aqui ainda se beneficia do 3D estereoscópio, que por sinal foi usado com primor. Abrams não gosta de ambientes 100% digitais, então vemos cenários maiores neste filme, e também um uso maior de profundidade quando temos os ambientes digitais e a interação dos atores com estes ambientes. Outro ponto favorável é a estrutura do roteiro, que privilegia todos os personagens e dá espaço para todos brilharem. Assim, podemos ver Uhura, Bones, Sulu, Chekov e Scotty realmente colocando a mão na massa, e não apenas sendo coadjuvantes de luxo de Kirk e Spock. A dupla, novamente interpretada com uma química impressionante pelos atores Chris Pine e Zachary Quinto, ainda é o grande chamariz, mas Abrams mostra que sua experiência em Lost com muitos personagens fez a diferença por aqui.

Embora o filme de 1999 seja fenomenal, tinha um defeito imperdoável: o vilão. O Nero de Eric Bana não convenceu, muito em parte pela visível deficiência do ator. Abrams não repete o erro e escalou para Além da Escuridão o excelente Benedict Cumberbatch, ator inglês da série Sherlock, e que será visto (ou melhor, ouvido) em breve como Smaug, na continuação de O Hobbit. Cumberbatch é uma ameaça real, um inimigo traiçoeiro e realmente poderoso, e sua ligação com a mitologia da série vai deixar os fãs satisfeitíssimos. O ator, que tem uma empostação de voz grave e uma presença em cena realmente impactante faz a diferença, e constrói um vilão memorável.

Mesmo que a quantidade de filmes espaciais às vezes façam parecer que as sequencias de efeitos especiais pareçam mais do mesmo, cabe às equipes técnicas e ao diretor a capacidade de inovar para surpreender ao público. Além da Escuridão ainda tem mais este ponto a seu favor: Abrams optou por sequencias inteiras com estilos e tonalidades diferentes, nos dando uma outra visão do espaço, onde os perigos não são apenas as ameaças naturais. Embora ainda vejamos os mesmos mecanismos que já são usuais nos filmes de ficção científica, como aceleradores de dobra ou o clássico teletransportador, há pequenas diferenças conceituais e visuais. Tudo, obviamente, com um propósito claro e diretamente ligado com a narrativa.

Típico filmaço desta época do ano, Além da Escuridão - Star Trek está audaciosamente indo onde um blockbuster jamais esteve, ao menos até agora, neste ano de 2013. Muita água ainda tem que rolar, mas é certo que não será fácil superar esta grande obra que é um presentão para os fãs de ficção científica em geral, e por que não, para o Trekker que existe dentro de cada um de nós.

Cotação: ****

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