Crítica: A parte dos anjos

Ken Loach é um dos cineastas europeus mais politizados em atividade atualmente. Ao contrário de outros colegas engajados como, por exemplo, Spike Lee, ele não faz ataques gratuitos e nem defende este ou aquele lado ao contar suas histórias. Ele expõe dramas, revela mazelas dos grandes centros urbanos da Grã-bretanha e quase sempre carrega um discurso sócio-político nas entrelinhas, de forma discreta, mas não menos eficiente.

Seu mais novo trabalho, A parte dos anjos, acaba sendo um de seus filmes mais leves. Vencedor do prêmio do júri no último Festival de Cannes, esta comédia com toques dramáticos ambientada no subúrbio de Glasgow, na Escócia, levanta questões bastante atuais sobre a realidade européia e ainda aproveita para dar uma aula sobre a bebida típica do país das kilts: o whisky. 


A paixão de Ken Loach pela bebida escocesa é a força motriz do roteiro de A parte dos anjos. Por sinal, o título no original (Angel´s share) é exatamente a expressão que representa o percentual da bebida que evapora quando é aberto o barril em que ela fica por anos no processo de envelhecimento. Esta "parte dos anjos", por vezes gera prejuízos exorbitantes, principalmente se pensarmos que existem whiskies que são cotados em milhares de dólares.

No filme, acompanhamos a história de um grupo de desajustados que está prestando serviços comunitários para quitar seus débitos com a justiça. Entre eles está Robbie (Paul Brannigan), um jovem que busca desesperadamente melhorar de vida para poder cuidar do amor da sua vida e do filho recém nascido. Ao conhecer o colecionador de whiskies Thaddeus (Roger Allam) e descobrir um dom natural para a degustação da bebida, ele toma conhecimento de um leilão de um whisky raro que pode ser sua grande chance de mudar de vida. Para ajudá-lo em seu plano, ele contará com os amigos Albert (Gary Maitland), Rhino (William Ruane) e Leonie (Siobhan Reilly), um grupo nada convencional.

O elenco que Ken Loach selecionou para A parte dos anjos é simplesmente sensacional. Todos os atores estão excelentes em seus personagens, mas o maior destaque é o veterano John Henshaw, que entrega uma atuação emocionante como Harry, o bondoso agente responsável por direcionar Robbie e seus amigos para seus trabalhos comunitários. As sequencias em que seu personagem e o de Paul Branningan desenvolvem seus laços de amizade são um exemplo da perícia do diretor em emocionar sem ser piegas.

Outro ponto alto de A parte dos anjos é a escolha das locações na região das Highlands Escocesas, que toma boa parte do terceiro ato do filme. As belezas naturais do país são incríveis, e o diretor de fotografia Robbie Ryan soube captar a essência deste deslumbramento como ninguém (é compreensível, pois ele tem experiência em curta-metragens do Discovery Channel). Mas a bela escolha de planos também é vista nas sequencias iniciais do filme, embora o diretor foque a pobreza e decadência da maior região metropolitana escocesa. 

A parte dos anjos não é um trabalho inesquecível de Ken Loach no nível de Terra e Liberdade ou Meu nome é Joe. É um filme simples, despretensioso, leve e gostoso de assistir. E o melhor de tudo: bastante reflexivo. E não vai te deixar com a dor de cabeça que um whisky (ou um filme) de má qualidade deixaria. 

Cotação: ***


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