Crítica: Detona Ralph

A Disney já não reina absoluta no mundo da animação. O estúdio do Mickey, dono de clássicos inesquecíveis como Branca de Neve e os sete anões, Pinóquio, A Dama e o Vagabundo e os mais recentes A Bela e a fera e O Rei Leão, dentre outros, ganhou competidores de peso para brigar pelo coração de crianças e adultos do mundo todo. Em comparação à ousadia de alguns deles, parecia que os herdeiros do mestre Walt tinham ficado para trás, perdidos no tempo. Mesmo sucessos esporádicos de público como Lilo & Stitch e A Nova onda do Imperador não conseguiram balançar a crítica especializada, que ainda considerava a Disney desacreditada no ramo.

Foi preciso deixar de lado a técnica clássica de animar com papel e lápis e se entregar ao mundo do CGI para que esse quadro começasse a mudar. O Galinho Chicken Little deu a largada decepcionando um pouco no resultado final, mas conseguindo um bom retorno na bilheteria. A Família do Futuro e Bolt foram menos bem sucedidos financeiramente, mas conseguiram juntar alguns fãs. E Enrolados se apegou à velha fórmula de conto de fadas e belas canções para se tornar um estrondoso sucesso mundial. No entanto, ainda faltava um filme que quebrasse os padrões e mostrasse algo diferente. 

Eis que em meados de 2011, a Disney lança para seus investidores um pôster conceitual de um futuro projeto, uma animação que faria uma homenagem ao mundo dos videogames. Apenas o rosto do personagem principal estampava a arte promocional, em um design quadradão que remetia aos arcades clássicos da década de 80. Em pouco tempo, Detona Ralph se tornou o filme animado mais esperado por uma legião de nerds em todo o mundo.

A espera valeu a pena: com uma premissa inteligente, um roteiro esperto e movimentado e uma galeria de personagens sensacional, Detona Ralph é o sopro de originalidade que o mais clássico estúdio de animação do mundo precisava para definitivamente voltar ao topo.


A surpresa já começa no logo de apresentação do estúdio, convertido aos 8 bits juntamente com sua trilha sonora. Detona Ralph já situa o expectador logo de cara no mundo que a história irá explorar, e diversas figuras conhecidas deste universo dão as caras - de lutadores de Street Fighter ao porco espinho Sonic. Mas não pense que o filme se limite a um punhado de referências aos games e seus personagens clássicos: elas existem, sim, e ajudam a contar a história, mas em nenhum momento são o maior destaque na trama.

Os roteiristas de Detona Ralph (alguns egressos de desenhos animados como Os Simpsons e Futurama) estavam inspiradíssimos ao elaborar a história do novo longa da Disney. Além das referências óbvias na composição dos mundos virtuais que são mostrados no filme (o jogo Conserta Félix, se você observar, é muito parecido com  Donkey Kong, ao mesmo tempo que Missão de Herói é uma versão mais branda de Call of Duty), coisas como bugs e tilts - que infernizam a vida dos jogadores - estão presentes e são utilizadas com inteligência no desenvolvimento da trama. E muito feliz foi a escolha dos personagens da animação, que são por demais interessantes.

Detona Ralph conta a história de um vilão de um popular jogo de videogame que, cansado da solidão e indiferença dos colegas que só vangloriam o mocinho, resolve partir em uma jornada a um outro jogo e conseguir uma medalha de herói para, assim, ser respeitado e querido. No caminho ele acaba liberando um mal que pode representar o fim de todo o seu mundo, e com a ajuda de novos amigos irá aprender o  significado de ser um verdadeiro herói.

Obviamente que por se tratar de um filme da Disney, as lições de moral explícitas estão presentes. Mas a pegada já é diferente, por que agora temos a mão de John Lasseter, da Pixar, na produção executiva da Disney Animation Studios. Você consegue notar em alguns aspectos da animação a influência de Lasseter e da sua equipe, por exemplo, no desenvolvimento da relação entre Ralph e a personagem Vanellope Von Schweetz, conflitante e doce ao mesmo tempo. O fato do filme aparentemente não ter um antagonista declarado também é típico da forma Pixar de contar histórias.

Se você vai assistir ao filme na versão dublada, preste atenção na excelente composição do personagem Conserta Félix na dublagem feita pelo humorista do CQC Rafael Cortez. Tiago Abravanel como Ralph também é um destaque.

Detona Ralph é uma excelente pedida para aqueles pais nostálgicos na casa dos 30 se divertirem mais do que os filhos no Cinema. No fim das contas, é a Disney mostrando mais uma vez que filme para a família é uma coisa que ela entende como se faz mais do que ninguém.

Cotação: ****

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