Crítica: Skyfall

Não é todo dia que uma franquia cinematográfica completa 50 anos. Com uma carreira de altos (Os diamantes são eternos, Octopussy, Cassino Royale) e baixos (Moscou contra 007, 007 contra o foguete da morte, Um novo dia para morrer, Quantum of solace), o espião a serviço de sua majestade pode se considerar um cinquentenário bem sucedido no saldo final. Para comemorar de forma condizente todo este sucesso, os produtores da franquia de James Bond prometeram um espetáculo para o vigésimo terceiro filme de 007. A promessa foi cumprida.

Diversas foram as escolhas certas para esta nova aventura do espião mais famoso do cinema, mas com certeza a maior delas foi a escolha do cineasta Sam Mendes para comandar a festa na cadeira de diretor. Profissional respeitado e querido na indústria, que o consagrou em 2000 com o Oscar pela arrebatadora estreia em Beleza Americana, Mendes tem um inegável talento para compor dramas e personagens. Tudo o que se precisava para fazer uma aventura de James Bond à moda antiga.

Skyfall é, de longe, o filme mais interessante da franquia nos últimos anos, e nos faz esquecer por completo o risível último capítulo estrelado por Daniel Craig, que conseguiu acertar o tom novamente e entregar uma atuação mais convincente, tal como fez em Cassino Royale. 


A premissa básica do roteiro é uma homenagem nas entrelinhas à própria cinessérie, com auto-referências a quase todo o momento. Diferente do último filme, que priorizava a ação desenfreada e quase nos fazia achar que Bond era um lutador de vale-tudo e não um espião, Skyfall volta a se concentrar na fórmula que fez o sucesso nestes 50 anos: uma trama bem elaborada, um vilão realmente perigoso, uma dose de romance e belas mulheres. 

Sobra espaço também para ousadia. Neste novo capítulo, o protagonista divide mais tempo de tela com M, a toda poderosa chefe do MI6 que desde Goldeneye tem as rígidas expressões faciais da dama do teatro britânico Judi Dench. M não é apenas uma figurante na história, tendo destaque na trama e desenvolvendo mais amplamente sua relação com Bond. Quem também está de volta é Q, desta vez vivido pelo jovem ator Ben Whishaw, que tem algumas das melhores tiradas do filme e excelentes embates com o personagem de Craig. O sempre competente Ralph Fiennes também se apresenta na franquia, e promete surpresas para os próximos filmes.

James Bond talvez seja um dos heróis que tem a galeria mais interessante de vilões junto com Batman e Homem Aranha. Para um bom filme de 007, é vital que o antagonista seja marcante, e é exatamente o que acontece com o Silva de Javier Bardem. O excelente ator espanhol já representou um vilão memorável nas telas (o Chigurh de Onde os fracos não tem vez), e aqui repete a façanha de maneira espetacular. Silva é um tipo andrógeno, maquiavelicamente inteligente e totalmente insano, tudo o que um bom vilão precisa para roubar a cena.

Mas este encontro do bom roteiro com as excelentes atuações do elenco não seria possível sem um grande talento por trás das câmeras. Sam Mendes soube conduzir Skyfall de forma a fazer valer a vontade de se criar um filme que fosse ao mesmo tempo visionário e vintage. Neste contexto, o insosso tema musical de Adele até se enquadra à proposta, embora fique anos luz atrás de clássicos como Live and let die ou For your eyes only (mas a moça é a cantora britânica de sucesso da vez). 

Mendes é um diretor autoral, que gosta de ousar em truques de montagem e belíssimos planos com efeitos visuais, o que se consegue notar logo na sequencia de abertura, com as imagens caleidoscópicas tão típicas de sua filmografia. Note com carinho pelo menos duas cenas que são plasticamente perfeitas: o embate de Bond com um assassino em frente a uma janela de um arranha céu de Hong Kog; e uma cena de nudez entre o agente secreto e a bond girl da vez durante um sensual banho de chuveiro. Fica difícil não se dar conta de que não se trata `apenas`de um pretenso filme de ação.

Se a ideia era manter 007 no topo, Skyfall conseguiu com láureas. Manter um ícone em atividade com êxito durante tantos anos merece nossa admiração e elogios, embora, claro, não seja difícil admirar um cara que dirige os melhores carros e conquista as mais belas mulheres. Quem nunca quis pelo menos um dia na vida ser James Bond, que atire a primeira pedra.

Cotação: ***

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Crítica: A Cabana

Crítica: Logan

Crítica: A Bela e a Fera