Crítica: Elefante Branco

Ninguém faz filmes com temáticas sócio-políticas como a Argentina nos dias de hoje. Reflexo ou não do momento que vive o país, os inúmeros filmes que exploram o gênero, de Nove Rainhas a este novo Elefante Branco, são responsáveis diretos pelo sucesso e reconhecimento internacional que o Cinema dos nossos vizinhos latino-americanos conquistou nos últimos anos.

Pablo Trapero é um destes cineastas que sabe como ninguém retratar as mazelas da sociedade Argentina. Se em Abutres ele já havia chamado atenção, agora com Elefante Branco ele se firma como um dos grandes nomes do Cinema Latino, e entrega um filme que impressiona pela crueza com que mostra uma realidade que muita gente tenta fingir acreditar que não existe.


O filme aproveita uma história real - o assassinato de Carlos Mujica, um religioso que praticava ajuda humanitária em uma favela na periferia de Buenos Aires - para contar a história de dois Padres, Julián e Nicolás, que junto de uma assistente social, precisam conviver com a violência, o descaso das autoridades e a corrupção da máquina pública, enquanto tentam ajudar as pessoas de bem de uma comunidade abandonada à própria sorte pelo sistema.

O Elefante Branco do título é um hospital gigantesco, cuja obra nunca foi completa, e se tornou um gigante decadente de concreto em meio à pobreza de uma comunidade carente de tudo. Trapero novamente utiliza uma linguagem de mobilização, e ao invés de perder-se em tentar propor uma solução boa ou má para as questões que são expostas pelo excelente roteiro, vai dando ao público uma ideia de sua extensão e das consequências trágicas que garantem um terceiro ato excepcional para a película.

Excepcional, por sinal, é pouco para a conclusão de Elefante Branco. A câmera de Trapero atinge dimensões angustiantes nas cenas finais, um confronto entre os policiais e o povo da favela que chega a parecer documental de tão perfeitamente bem filmado. E o diretor não precisou de uma fotografia vanguardista para impressionar, ele utiliza recursos comuns. O que se vê é um domínio de narrativa que se sobrepõe à necessidade de auto-afirmação de alguns cineastas, que acham que o primordial é simplesmente chamar a atenção pelo plástica e se esquecem do conteúdo.

Obviamente que a presença de um gigante do cinema como protagonista ajuda demais: Ricardo Darín repete a parceria de Abutres com o diretor e entrega mais um  personagem memorável. Seu colega de elenco, o Belga Jérémie Renier, também está excelente e tem a difícil missão de interpretar um sujeito ambíguo, um padre estrangeiro que apesar da boa fé não consegue se enxergar em meio a uma realidade social totalmente impensável para ele, e que ainda convive com conflitos pessoais sobre a sua vocação.

Elefante Branco não é um filme bonito de se ver, e esse não é realmente seu objetivo. É um filme que expõe uma realidade social por demais parecida com a nossa. A diferença está somente na dimensão territorial que uma e outra ocupam. Imagine o tamanho do problema por aqui.

Cotação: ***

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