Crítica: Intocáveis

Grandes sucessos de bilheteria quase sempre são vinculados ao cinema americano. Vez ou outra, surgem filmes em outras partes do mundo que se tornam grandes sucessos mundiais, caso do Italiano A Vida é Bela, do Taiwanês O Tigre e o Dragão, do Chinês Herói ou do Francês O Fabuloso destino de Amelie Poulin. Mas 2011 fez nascer na França aquele filme produzido fora de Hollywood que se tornaria o mais bem sucedido da história, o emocionante Intocáveis.

Este sucesso não é apenas merecido, como também justificável. A escola francesa de cinema, mãe de mestres  como Georges Mélies, Jean Renoir, Alain Resnais, Jacques Tati, dentre outros, não é exatamente o que podemos chamar de popular. Embora um dos mais dinâmicos da Europa, o cinema Francês não empolga o público fora do velho continente. Neste sentido, essa produção de fácil leitura e de estrutura linear já era um trunfo para um bom aceite internacional. Mas Intocáveis se destaca ainda mais pela belíssima história de superação que apresenta, que não cai no piegas em momento algum.


Os diretores Olivier Nakache e Eric Toledano souberam conduzir de forma exemplar a história de dois homens muito diferentes, o aristocrata Phillipe e o imigrante Senegalês Driss. Phillipe, preso em uma cadeira de rodas desde o acidente que o deixou paraplégico, depende totalmente de um acompanhante até para as atividades mais simples, e aos poucos vai perdendo a alegria de viver. Esta situação muda quando, ao entrevistar diversos candidatos para assumir o posto de acompanhante, ele conhece Driss, um rapaz de origem humilde, com uma personalidade singular e que esbanja energia. Mesmo contra a vontade de seus familiares e seus outros empregados, Phillipe contrata o rapaz, e a partir daí uma grande amizade surge entre eles, que mudará totalmente o destino de ambos.

Não se pode negar o fato de que este roteiro - que é baseado em uma história real - não é exatamente dos mais originais. No entanto, a leveza com que a história é contada, alternando drama e comédia de maneira inteligente, sobrepõe-se a esta questão. Também é de se destacar a excelente química entre os protagonistas. Como Phillipe, o ator François Cluzet tem uma performance impressionante, que transparece emoção com pequenos jogos de olhar. Já Omar Sy faz de Driss um daqueles personagens que não saem da nossa cabeça, um anti-herói que aproveita sua segunda chance com esmero e emociona até aqueles mais carrancudos.

O filme não deixa para trás os conceitos consagrados da escola francesa, e investe em críticas políticas, mesmo que nas entrelinhas. Pode-se notar facilmente as referências ao empobrecimento da classe média francesa - bastante contemporâneo, se considerarmos a recente crise européia - bem como ao histórico problema da segregação dos imigrantes das ex-colonias Africanas. Mesmo que não seja o tema principal, esta dicotomia social é importante dentro do contexto do longa, e contribui para fortalecer a mensagem que os diretores querem passar.

Intocáveis tem como cenários a periferia de Paris e as elegantes ruas e avenidas da capital Francesa. A ideia aqui não é enaltecer a cidade da forma como, por exemplo, Woody Allen fez recentemente em Meia noite em Paris, mas é difícil não se deslumbrar com sua arquitetura clássica e as belíssimas imagens do Rio Sena, que parece, literalmente, abraçá-la. No entanto, o momento mais inspirado do longa se passa bem longe da Cidade Luz, nos Alpes Suiços, numa sequencia de imagens de tirar o fôlego.

Como produto do cinema Francês para as massas, Intocáveis mostrou que foi um verdadeiro sucesso. Como cinema, idem, ao menos no ponto de vista deste que vos fala. É sempre bom se emocionar na sala escura, principalmente se a emoção é genuína e não empurrada a você goela a baixo. 

Cotação: ****

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