Crítica: Valente

Para qualquer cinéfilo e fã de animação que se preze, a expectativa em torno dos novos filmes da Pixar é sempre elevada. Este ano era ainda maior, afinal, desde 2009 - quando lançou Up - altas aventuras - o estúdio não apresentava uma produção original, investindo em sequências de outros sucessos (o lírico Toy Story 3 e o comercial Carros 2). Neste meio tempo, um projeto interessante havia sido abandonado (Newt, que contaria a história de duas salamandras que tentam salvar a espécie da extinção), diz-se, por guardar muitas semelhanças com o filme da Blu-Sky Rio; e outro estava trocando de nome e de diretor, por questões de divergências criativas. Coincidentemente, é de Valente que estou falando agora.

O filme seria a estréia de Mark Andrews na direção de um longa metragem (é comum na Pixar os profissionais serem testados com os curtas da casa antes de seguirem para os trabalhos em longas, e Andrews já havia dirigido o mediano A banda de um homem só), mas ele acabou abandonando o projeto, que migrou para as mãos da experiente Brenda Chapman (que na Dreamworks havia comandado o bem sucedido O príncipe do Egito). Talvez esta passagem de mãos e desenvolvimento conturbado tenha contribuído para o resultado mediano de Valente.


Mediano, devo dizer, na escala Pixar de qualidade - o que já é um diferencial, diga-se de passagem. Embora conte com uma história mais fraca e personagens nem tão cativantes quanto as dúzias de tipos já consagrados pela produtora, Valente ainda assim é uma aventura épica de animação bem acima da média, e que tem sua maior força no trabalho excelente de design de produção: as paisagens de uma Escócia bucólica e medieval são de fazer cair o queixo.

Mas este trabalho de composição visual exuberante já é padrão na Pixar, e tem uma longa história de sucesso na Disney. Como de costume, os animadores visitaram o país para conhecer suas belezas e sua riqueza histórica, assim como os roteiristas, que incluíram no texto contos e lendas locais que ajudaram na composição do argumento do longa. Valente inicia promissor, com uma narração da protagonista, Merida, que explica um pouco mais sobre seu povo e as histórias fantásticas de sua terra natal. No entanto, a medida que o filme prossegue, perde-se um pouco deste lado épico para investir na relação conturbada entre a protagonista e sua mãe, que insiste que a filha deve aposentar seu arco e flecha e se portar como uma verdadeira princesa, aceitando seu destino e casar-se com um dos filhos dos líderes de outros clãs, para assim  manter uma tradição de gerações.

Nem precisa dizer que este tema é muito batido e já foi utilizado inúmeras vezes, mas é em como a trama se desenvolve a partir daí que está o maior problema: tudo é muito familiar, e por vezes parece que estamos vendo outros filmes na tela (Irmão Urso e Mulan são as referências mais evidentes). Vindo do estúdio que já faturou um Oscar de roteiro original e já foi indicado a este prêmio por muitas outras vezes, é bastante decepcionante ficar com esta impressão.

Sendo a sua primeira protagonista feminina, era óbvio que os animadores da Pixar iriam caprichar no visual de Merida. As madeixas ruivas da menina impressionam - principalmente para quem entende um pouco de animação e sabe como é difícil fazer fios de cabelo em computação gráfica - mas o que chama mais atenção é a perfeição dos traços - propositalmente menos cartunescos do que em outros filmes como Os Incríveis e Up. Merida é mais um capítulo na saga Disney de ruptura da imagem da princesa frágil, que começou com a sensual Esmeralda de O corcunda de Notre Dame, passando pela batalhadora Tiana de A princesa e o sapo e mais recentemente maturada na espevitada Rapunzel, que em Enrolados estava sempre armada e perigosa (mesmo que a arma em questão fosse uma frigideira). Merida é a alma e o coração de Valente, mas por incrível que pareça tem muito pouca chance de mostrar a valentia que dá nome ao longa.

Outro erro do filme que não é comum em trabalhos da Pixar é a presença de coadjuvantes alívio cômico que tem pouco a acrescentar à história. É o caso dos três irmãos de Merida, que estão no filme apenas para criar aquele momento ´ohhhh` para a mulherada. Mas a grande falha de Valente é a ausência de um vilão interessante, um nêmesis que represente um perigo real para a protagonista: quando ele surge, o resultado do ataque é tão previsível que acaba perdendo toda a graça.

Valente acaba sendo um filme menor da Pixar, um estúdio que acabou criando uma legião de fãs mal acostumados, que querem todo ano um clássico. Em um 2012 cheio de animações empolgantes e que ainda tem pela frente os promissores Detona Ralph e A origem dos guardiões, não seria de se estranhar se ele caísse no esquecimento.

Cotação: **

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Crítica: A Cabana

Crítica: Logan

Crítica: A Bela e a Fera