Crítica: Batman Begins

Em 2000, o mundo foi apresentado a um gênio da sétima arte que entregava ao cinema aquela que seria a primeira de muitas obras primas: Amnésia, um drama de baixo orçamento inovador que contava - de trás para frente - a história de um homem que sofria de perda de memória recente e estava envolvido em uma trama de sexo, traição e violência. Aplaudido por onde passou, o filme foi indicado ao Oscar de roteiro original e colocou os holofotes no até então desconhecido Christopher Nolan.

Meio mundo foi pego de surpresa quando, dois anos depois, a Warner declarou que estava retirando do limbo uma de suas franquias mais rentáveis, Batman, o herói da DC Comics que estava sumido das telas grandes desde que o fracassado Batman e Robin havia envergonhado o legado do personagem e se tornado motivo de chacota de grande parte do público em todo o mundo. Mas a maior surpresa foi saber que aquele jovem cineasta autoral iria assumir a franquia do Homem Morcego para apresentá-lo a uma nova geração.

Batman Begins chegou aos cinemas cercado de desconfiança, prometendo uma trama realista e sombria que respeitasse os quadrinhos clássicos do herói, desde as primeiras histórias na Detective Comics até seus momentos clássicos com autores como Frank Miller e Jeph Loeb. Com quase meio bilhão de dólares nas bilheterias e críticas entusiasmadas, Nolan conseguiu trazer de volta o Cavaleiro das Trevas com dignidade e, para delírio dos fãs, de uma forma que nunca havia sido vista na TV ou no cinema.


Não demorou nem um pouco para Batman Begins ser considerado por 9 entre 10 fãs como o melhor filme do personagem em todos os tempos, como também um dos melhores filmes da história baseado em um herói de quadrinhos.

Nolan criou uma trama fantástica para Batman Begins, que se focava mais em Bruce Wayne do que no próprio Batman. Para explicar o motivo por trás dele ter se tornado um vigilante mascarado, apresentou a jornada do órfão milionário pelo submundo do crime para entender a mente criminosa e encontrar salvação para sua cidade, Gotham City, dominada pela corrupção e pelo crime organizado. Atormentado pela morte dos pais nas mãos de uma das vítimas da crueldade que corrompia o sistema da maior cidade do Universo DC, ele cria, com a ajuda de um rigoroso treinamento com um grupo de justiceiros que se auto-denominava a Liga das Sombras, uma figura que era a transposição física de seus próprios medos, com objetivo de afrontar seus inimigos. Assim surge o Batman, na visão de Christopher Nolan.

Sim, Batman Begins era uma história de origem e, como tal, iria desconsiderar qualquer outra versão do herói que tivesse sido apresentada anteriormente - seja pelas mãos de Tim Burton ou do carnavalesco Joel Schumacher. Mas Nolan ousou mais: ao invés de apelar de cara para o nêmesis mais famoso do herói - o palhaço do crime conhecido como Coringa - buscou para seu filme vilões menos conhecidos do grande público e que ainda não haviam sido aproveitados no cinema. De maneira impressionante, criou todo um suspense por trás da identidade de Rha´s Al Ghul (que acabou ganhando as feições e o talento de Liam Neeson) e um visual arrojado para o Espantalho, alter ego do psiquiatra do Asilo Arkham Jonathan Crane. Ambos os vilões estão intimamente ligados à trama do filme, que se marcou pela coerência da apresentação do herói e de sua jornada até se tornar um símbolo.

É claro que o sucesso de Batman Begins não se deveu apenas do talento de Nolan e seu irmão, responsável pelo excelente script. O diretor conseguiu reunir um panteão de atores que até então era um sonho impossível até para o mais cético dos fãs de histórias em quadrinhos. Da revelação do cinema alternativo Christian Bale aos monstros sagrados Morgan Freeman, Gary Oldman e Michael Caine, a cada rosto que era apresentado nos trailers - que ainda mostravam Kate Holmes, Tom Wilkinson, Cilliam Murphy, Ken Watanabe e Rutger Hauer - Batman Begins trazia para os fãs uma mistura de alegria e desespero: afinal de contas, como conseguir aproveitar tantos atores notáveis em uma trama de pouco mais de 120 minutos? Nolan não apenas comprovou que era possível criar um grande filme com muitos personagens - sendo todos devidamente apresentados e desenvolvidos - como também poderia extrair de seus astros toda a seriedade que o projeto merecia. Depois de poucos minutos de filme, o público compreendeu por que tanta gente boa havia embarcado no projeto.

Batman Begins não se limita a ser uma história de origem normal, com suas fórmulas e clichês típicos: Nolan busca em cada frame contar a jornada do herói de uma maneira crível, próxima da realidade e espantosamente amparada em fatos científicos e tecnologia de ponta. Desde os detalhes mais simples do uniforme à grandiosidade da Batcaverna, tudo tem uma explicação o mais próxima possível do que poderia ser considerado factível. Essa busca por realismo também influenciou a fotografia e a trilha sonora, ambas soberbas e totalmente alinhadas com o estilo que o cineasta quis impor para sua visão do vigilante mais importante de Gothan City.

Se não se tornou efetivamente um divisor de águas na história das adaptações de quadrinhos para o cinema, é certo que Batman Begins começou a cimentar este caminho, que seria definitivamente alcançado com Batman, o cavaleiro das trevas. Mas esta é uma outra história.

Cotação: ***

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