Crítica: Prometheus

Não é todo diretor que pode se gabar de dizer que criou um gênero cinematográfico. Ridley Scott é um destes raros exemplos. Na década de 70, após a explosão de Star Wars, todo estúdio em Hollywood queria explorar a mania que se tornou os filmes espaciais. Mas o inglês ousou mais: ao invés de desenvolver um filme de ficção científica família, criou o conceito de horror scy-fy e entregou para o cinema um de seus maiores clássicos, Alien, o oitavo passageiro.

O primeiro Alien é um exemplo de filme que envelhece muito bem. Mesmo com o ápice dos efeitos visuais atingido nos últimos anos, o trabalho feito no filme ainda impressiona, principalmente se considerarmos a última versão lançada em Blu-ray. Alien ainda inspira diversas obras cinematográficas, e sua cinessérie foi o empurrão nas carreiras de diretores como James Cameron e David Fincher - embora, é importante dizer, o único filme que faça frente à genialidade do original seja Alien, o resgate. Não é preciso falar que a ideia de Scott retornar à mitologia de seu trabalho mais importante (junto com Blade Runner) enlouqueceu cinéfilos pelo mundo todo: com o perdão do trocadilho, Prometheus prometia muito. Pode acreditar que ele cumpriu, mas o melhor é que foi apenas em parte.


Alien, o oitavo passageiro sempre gerou muitas perguntas dado a sequencia de eventos não explicados que permeavam a história da nave Nostromo. Um destes mistérios era o Space Jockey, a criatura fossilizada encontrada pela Tenente Ridpley e seus colegas no planeta misterioso que visitam atendendo um chamado de socorro, e que se tornou o hospedeiro do primeiro Alien. Prometheus não escolhe o caminho do didatismo, simplesmente respondendo estas e outras perguntas; o filme aprofunda a mitologia da série por um caminho próprio, o que é favorecido pelo fato de ser um prelúdio. Sua cena inicial já é intrigante e abre possibilidades e discussões.

Pode-se dizer que a influência de Damon Lindelof, um dos responsáveis pela série fenômeno Lost, foi decisiva no caminho que Prometheus iria tomar. Quando o projeto começou, Ridley Scott dizia abertamente que estava retornando à série Alien - que havia se tornado motivo de chacota depois de absurdos como Alien, a ressurreição e Alien vs Predador. Talvez este histórico recente de fracassos tenha preocupado os executivos da Fox, e o discurso começou a mudar. Com o desenvolvimento, na teoria, de um trabalho totalmente independente, Lindelof pôde incluir no roteiro algumas das características que fizeram de Lost um sucesso: muito mistério e perguntas que não seriam respondidas de imediato. Apenas quando surgiram as primeiras fotos da produção é que ficou claro que o prelúdio iria, sim, conversar com o filme original. A jogada foi perfeita, e a atenção em torno de Prometheus tornou-se ainda maior.

Mas se Alien não havia se aprofundado em temas filosóficos, em Prometheus temos isto de sobra. Seja na forma de metáforas ou em diálogos abertos, o filme discorre sobre questões humanistas, religiosas e científicas com propriedade. Diversas teorias apontam que a raça humana poderia ter sido originada de uma civilização alienígena, e Ridley Scott utiliza esta premissa para desenhar o arco principal de seu filme e deixar claro para o publico que está apenas começando uma nova jornada. As auto-referências são a cereja do bolo: os fãs vão vibrar com a cena do 'parto' e com o plano final, que é quase como uma resposta 'sim, é Alien que você está assistindo'.

Prometheus se favorece em muito do bom trabalho realizado no roteiro e na composição dos personagens, mas não deixa nem um pouco a desejar na parte técnica. A ambientação muda o ritmo da ação frente ao Alien original, que se tornava mais claustrofóbico por decorrer basicamente dentro da nave Nostromo, mas é perfeitamente compreensível quando analisado o caminho que o novo filme quer tomar. As sequencias no planeta alienígena são prato cheio para o uso de incríveis efeitos especiais e a exploração dos recursos do 3D, e os cenários grandiosos são um espetáculo à parte. 

Os fãs mais xiitas reclamaram da ausência de Sigourney Weaver, mas Prometheus não passa em branco ao fazer homenagens explícitas a esta personagem feminina icônica do cinema de ação. As referências não são diretas como pelo fato de existir uma nova protagonista feminina forte (Noomi Rapace, excelente); são visuais. E como todo bom cinema exige, você vai precisar de muita atenção para captar a essência do que Ridley Scott quis mostrar. 

Prometheus busca estabelecer-se como uma nova franquia, e para tanto, é vital que a história conte com personagens que captem o interesse do público. Michael Fassbender que o diga: seu David, um andróide que despreza sua natureza de criatura, é daqueles tipos que chamam a atenção logo de cara, não apenas pela representação perfeita do ator, mas também pelo peso dramático que possui. O elenco multi-étnico (a nova moda em Hollywood, que segundo os especialistas garante aceitação maior dos filmes nas bilheterias internacionais), conta ainda com Charlize Theron, bela e competente como sempre, e Guy Pearce, transformado por um excelente trabalho de maquiagem que o deixa praticamente irreconhecível.

Com Prometheus, Ridley Scott brinca de ser Deus e faz uma homenagem ao seu próprio Cinema. O público e a crítica já abençoaram a empreitada, que mesmo com a censura R (18 anos), conseguiu feitos notáveis em sua estréia. É o reconhecimento pela ousadia e coragem desta nova produção, que engrandece a safra de 2012, e aponta um futuro extraordinário para o gênero da ficção científica. 

Cotação: ***

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