Crítica: Jogos Vorazes

É um pouco injusta esta tentativa dos executivos de Hollywood de encontrar um substituto para as franquias milionárias de Harry Potter ou Crepúsculo. Essa novela já teve um final infeliz recentemente, quando os filmes que prometiam ser um novo O senhor dos anéis (o injustiçado A bússola de ouro e o fraco Eragon) naufragaram sem dó nem piedade nas bilheterias, deixando os fãs dos livros órfãos das adaptações seguintes, e histórias incompletas para quem não conhecia o material original.

Parece que podemos estar diante de uma nova séria cinematográfica que vai deixar este trauma para trás. Contanto com uma mitologia tão interessante quanto a do menino bruxo e uma história de amor melosa para agradar também as adolescentes com hormônios em ebulição que amam os vampiros porpurinados de Stephanie Meyer, Jogos Vorazes chega aos cinemas com uma fome voraz para atacar de assalto as bilheterias em todo o mundo.


Não apenas por representar um dos maiores fenômenos literários atuais, Jogos Vorazes também ficará lembrado pela excelente campanha de marketing realizada por - até aqui! - um estúdio considerado pequeno, o Lionsgate. Acostumado com filmes de baixo orçamento e produções sem muitas pretensões, o estúdio independente está fazendo história ao apostar suas fichas em uma ficção voltada para o público jovem, que em três dias (números oficiais, conforme dados do Box Office Mojo) já arrecadou 155 milhões de dólares e se tornou a terceira maior abertura de todos os tempos nos EUA.

Suzanne Collins, autora da trilogia, deve estar feliz da vida. O sucesso desta primeira empreitada de sua criação nas telas grandes já garante que os outros dois livros ganhem suas versões cinematográficas, para alívio dos fãs ao redor do Globo. Jogos Vorazes, apesar de claramente voltado para o público jovem, não tem medo de tocar em temas pesados e fazer homenagens veladas a diversas obras clássicas como 1984 e Admirável mundo novo. O conteúdo político presente nos livros também não pode ser menosprezado. É um trabalho interessante de ficção que aborda questões como a liberdade, a soberania e os direitos humanos, tendo como pano de fundo uma sociedade futurística pós-apocalíptica que favorece o exagero e a futilidade em detrimento do bem estar de uma maioria da população, o que é favorecido pelo poder que a mídia televisiva exerce sobre eles (você percebe algo comum com a nossa realidade atual?).

Na história do filme, 24 jovens são recrutados para participarem de uma competição, um reality show, chamado Jogos Vorazes, no qual terão que lutar entre si pela sobrevivência, já que, segundo às regras, apenas um deles poderá se tornar o vencedor e obter o sucesso e a glória. A protagonista Katniss Everdeen acaba se oferecendo para participar dos jogos contra a sua vontade, para salvar a vida da irmã mais nova que havia sido selecionada para a mortal competição. Nos jogos, ela terá a companhia de Peeta Mellark, um jovem que a amava em segredo. Juntos, eles irão confrontar os idealizadores por trás das regras do jogo e mudar a história da competição, para o bem, ou para o mal.

Na escalação dos atores, os produtores de Jogos Vorazes mostraram que realmente não estavam entrando neste jogo para perder. Como Katniss, a excelente e oscarizada Jennifer Lawrence (Inverno da alma, X-men primeira classe) dá ao filme a carga dramática necessária para fazer a diferença. Peeta é vivido pela astro em ascensão Josh Hutcherson, que apesar de não se comparar em competência à colega de tela, não deixa a peteca cair. Como coadjuvantes, são bem vindas as presenças de Woody Harrelson, Donald Sutherland, Stanley Tucci e Wes Bentley, além do músico Lenny Kravitz, todos representando personagens que, ao que parece, terão maior importância na trama das adaptações seguintes, mas são apresentados com competência, graças ao roteiro bem estruturado. Com uma aparência andrógena e por demais exagerada, Elizabeth Banks acaba ficando um pouco deslocada se comparada aos demais.

Este exagero na composição e nos figurinos de alguns personagens chega a incomodar se você ainda não está familiarizado com a mitologia dos livros, mas nem de longe é um fator negativo na avaliação geral de Jogos Vorazes. O filme se apóia muito mais em cenografia do que necessariamente em efeitos visuais, o que também dá mais realismo às atuações dos personagens e na ambientação do campo de batalha em que ocorrem os jogos. A palavra de ordem é o bom gosto, e ele está presente em todos os departamentos da produção, o que sempre é garantia de qualidade.

Jogos Vorazes vai balançar as estruturas de um 2012 que já prenunciava à tempos que seria um ano histórico para a sétima arte. O ano da ousadia, em vários níveis. O legal é ver que o público está entrando no jogo e premiando a ousadia que é amparada em qualidade com o inegável resultado do sucesso, o que é bom para os executivos e para todos os profissionais envolvidos. Todo mundo fica feliz.

Cotação: ***

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