Crítica: Millenium - Os homens que não amavam as mulheres

Franquias cinematográficas adaptadas de obras literárias são quase em sua totalidade produções destinadas ao público jovem. Deste bolo, temos O Senhor dos anéis, Harry Potter e o vindouro Jogos Vorazes, só para dar alguns exemplos. De tramas adultas, até pouco tempo, resumiam-se as adaptações dos livros de Dan Brown - cujos sucessos O código Da Vinci e Anjos e Demônios já viraram filmes pelas mãos de Ron Howard, com O símbolo perdido na agulha para ser o próximo. Os executivos de Hollywood precisaram virar seus olhos em direção da gelada Escandinávia para encontrar material para uma nova - e ambiciosa - série de cinema.

Para quem gosta e acompanha outras escolas da sétima arte, Os homens que não amavam as mulheres não é nenhuma novidade. Um dos volumes da famosíssima trilogia Millenium - que na Suécia é tão importante que já leva milhares de turistas ao país, interessados em ver de perto as locações esmiuçadas em detalhes nas páginas dos romances do falecido escritor Stieg Larsson -, Os homens que não amavam as mulheres foi adaptado para o cinema no seu país de origem, em uma badaladíssima produção protagonizada por Naomi Rapace, assim como suas duas sequências, A menina que brincava com fogo e A rainha do castelo de ar. Pelo seu grande potencial cinematográfico - apesar da violência excessiva e dos temas pouco ortodoxos tratados nos três volumes - era questão de tempo até que Hollywood se interessasse em realizar uma versão própria dos livros, em uma época onde refilmagens de filmes estrangeiros de sucesso é uma realidade.


Coube a David Fincher a missão de levar Millenium para o cinema americano. Acostumado com filmes que tratam da temática de assassinos seriais - são dele os sucessos Seven, os sete crimes capitais e Zodíaco -, Fincher era o nome mais do que certo para contar a história de Mikael Blomkvist e Lisbeth Salander, carregada de cenas impactantes e personagens complexos. Tratando de temas polêmicos como a corrupção do mercado financeiro, invasão de privacidade, violência sexual contra as mulheres, movimentos neofascistas e abuso de poder de uma maneira geral, era preciso um diretor talentoso e ousado para desenvolver a trama de maneira fiel ao material original, sem entregar-se a soluções fáceis. A lição de casa foi feita mais do que bem.

O filme acompanha o jornalista Mikael Blomkvist, editor da revista Millenium, especialista em noticiar escândalos nas altas cúpulas do mercado financeiro. Para se isolar de um último caso em que foi exposto publicamente e ridicularizado pelo seu acusado, ele parte para uma cidade do interior da Suécia onde um milionário industrial o contrata para desvendar o caso do sumiço de sua sobrinha há quase 40 anos, em que suspeita-se pode haver envolvimento de algum dos membros de sua desagradável família. Para ajudá-lo no caso, ele conta com a hacker Lisbeth Salander, uma jovem brilhante que vive sobre a tutela do estado, que a considera socialmente instável e desequilibrada.

O roteirista Steven Zaillian, que trabalhou em sucessos como Missão Impossível, Gangues de Nova York e O Gângster, acerta por manter a história em seu cenário original, ideia comprada de imediato por Fincher. Não por menos, as locações de Os homens que não amavam as mulheres são um pedaço importante do sucesso desta adaptação, mantendo o clima pesado e desolador imposto pela história - o que garante planos belíssimamente trabalhados pelo diretor de fotografia Jeff Cronenweth, parceiro de Fincher no recente A rede social.

Talvez a tarefa mais inglória desta refilmagem fosse a escolha do elenco, que inevitavelmente seria comparado ao original Sueco. Fincher sabia desta expectativa e apelou para grandes nomes no elenco coadjuvante, como o excelente Stellan Skarsgård - que é de origem Sueca - e monstros sagrados da sétima arte, como o veterano Christopher Plummer. Mas foi nos papéis principais que o diretor teve seu grande acerto: se o 007 Daniel Craig transmite a robustez ideal para Mikael, é de Rooney Mara o troféu de grande revelação, por apresentar uma Lisbeth ainda mais impressionante que a original. Tido como um dos grandes personagens femininos contemporâneos, a desajustada hacker é o papel dos sonhos de qualquer atriz para a consagração e o estrelato, e a jovem de 27 anos soube aproveitar a oportunidade, sendo, inclusive, indicada ao Oscar de melhor atriz.

A Columbia Pictures tem planos audaciosos para a trilogia nos EUA, incluindo a possibilidade de que os dois livros seguintes sejam filmados em sequência. O elenco já tem contrato para as continuações, mas a presença de Fincher ainda é um mistério. Os homens que não amavam as mulheres, e a trilogia Millenium, são uma boa chance de Hollywood mostrar que é capaz de realizar filmes que fogem ao padrão das atuais produções de suspense e horror do cinema americano, e construir uma franquia consistente para os milhares de fãs de Stieg Larsson espalhados pelo mundo. É o toque viking que a indústria andava precisando.

Cotação: ***

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