Crítica: Cavalo de Guerra

Existem histórias que nasceram para ser contadas por Steven Spielberg. O grande diretor americano, e talvez ícone mais importante da Indústria de Cinema de Hollywood, tem um jeito peculiar de transformar os roteiros em que põe as mãos em grandes espetáculos cinematográficos, nem que seja ao menos na questão visual. Cavalo de Guerra é mais um exemplar de trabalho do diretor que, nas mãos de outro, seria mais do mesmo.


O filme é livremente inspirado na peça teatral de mesmo nome, exibida originalmente nos palcos britânicos, e que foi transportada para o circuito off-Broadway em Nova York conquistando respeito do público e da crítica - além do Tony de melhor montagem teatral. Obviamente que por se tratarem de mídias diferentes, filme e peça tem pouco em comum, mas muito em parte pela decisão de Spielberg de valorizar mais o lado histórico do roteiro do que necessariamente a trajetória do herói principal, dando mais espaço para outros personagens humanos.

Não se pode dizer que tenha sido uma decisão totalmente acertada: os melhores momentos de Cavalo de Guerra são, sim, do cavalo Joey, como a impressionante de fuga em meio a um conflito armado nas trincheiras. Todas as passagens de batalha são orquestradas de maneira bárbara e visceral pelo diretor, acostumado ao tema em seus grandes sucessos anteriores, A lista de Schindler e O resgate do soldado Ryan, no cinema, e Band of Brothers e The Pacific na televisão. Os atores tem muito pouco a fazer no filme, com destaque maior para Tom Hiddleston (o Loki de Thor), que mesmo aparecendo pouco atesta que ainda vamos ouvir muito falar dele nos próximos anos.

Plástica em Cinema é coisa de mestre, e com Spielberg a coisa é ainda melhor. Se existe uma qualidade em Cavalo de Guerra, é sua exuberante direção de fotografia, conduzida por Janusz Kaminski, colaborador frequente do diretor e responsável por outros trabalhos irretocáveis como o realizado em O escafandro e a borboleta. Capaz de captar imagens com precisão seja de cenários reais, seja de ambientes virtuais, Kaminski aqui explora toda a riqueza das grandiosas locações que ambientam o interior da França e Inglaterra, utilizando palhetas de cores diferenciadas, e finalizando com uma grande homenagem ao clássico dos clássicos E o vento levou. Bonito demais de se ver.

O roteiro de Cavalo de Guerra desde o princípio se ampara no melodrama, mas Spielberg é suficientemente talentoso para não cair no piegas. A história tem vários momentos tristes, e realmente alguns aspectos do seu desenvolvimento são previsíveis, mas o diretor apara estas arestas investindo na ação. John Williams, responsável pela trilha sonora, captou esta essência, apresentando composições simples, mas que funcionam nos momentos certos. Vinda do mestre em questão, no entanto, acaba sendo um pouquinho decepcionante.

O erro de Spielberg, no entanto, é não definir qual seria o público alvo de seu filme: se a estrutura geral remete a um filme família - as cenas iniciais lembram o longa de animação da Dreamworks Spirit, o corcel indomável (só faltaram as músicas de Brian Adams), e o ganso da fazenda dos Narracott tem todo o jeitão de personagem de filmes como Babe, o porquinho atrapalhado - a medida que a história se desenvolve e a guerra deixa de ser apenas pano de fundo, o clima mais pesado fica um pouco destoante. Talvez isso explique a bilheteria ainda morna nas salas de todo o mundo.

Cavalo de Guerra abre a temporada do Oscar 2012 no Brasil, como primeiro grande lançamento a figurar na maioria das listas de melhores do ano que passou. Spielberg, com dois filmes no mesmo ano - o outro é a animação As aventuras de Tintin - não parece estar cansado de trabalhar. Que bom para ele e para nós, cinéfilos. Que venham os próximos filmes deste mago da sétima arte.

Cotação: ***

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