Crítica: As aventuras de Tintim - o segredo do Licorne

Imagine-se numa mesa em um estúdio de Hollywood discutindo idéias para um longa metragem com dois dos caras mais visionários do Cinema de entretenimento: pois é, deve ser no mínimo interessante sentar-se com Steven Spielberg, pai de criações mágicas no cinema como Tubarão, Indiana Jones, De volta para o futuro, Jurassic Park, e tantas outras, e Peter Jackson, o homem-hobbit que impressionou o mundo todo com a trilogia O senhor dos anéis. Somando-se ao fato de que o projeto em questão é uma paixão absoluta dos dois cineastas, a experiência realmente deve ter sido única.

O resultado da paixão se vê logo nos segundos iniciais de As aventuras de Tintim - o segredo do Licorne, a grande homenagem destes gênios ao grande quadrinista belga Hergé, criador do atemporal personagem.


Confesso que torci a cara quando soube dos rumos que o longa tomaria. Gostei de imaginar que Spielberg como diretor do primeiro (Jackson foi produtor, e no próximo os dois trocarão de cadeira) entregaria uma aventura bem nostálgica aos moldes de Os Goonies, com atores que se parecessem com os personagens. No entanto, para criar o visual mais próximo do que Hergé realizou nos quadrinhos, optou-se pela animação. Até aí, tudo bem. O que me irritou foi a escolha pelo motion-capture, que havia se tornado a especialidade do amigo e parceiro de longa data de Spielberg, Robert Zemeckis, e que gerou longas como O expresso polar, Beowulf e Os fantasmas de Scrooge. A técnica ainda não havia se mostrado eficiente para criar personagens humanos críveis, deixando todos parecendo mais bonecos animados. Felizmente, ao começar As aventuras de Tintim, esta impressão fica para trás; o design geral de cenários e personagens ficou fantástico.

Obviamente não faltam talentos por trás deste filme, e qualquer cinéfilo atento já se situa deste fato na apresentação, uma sequencia de animação clássica com o personagem onde o nome da equipe técnica vai surgindo. Todos ali são velhos conhecidos, e o fato deste projeto ser um filme de animação fica logo para trás e se torna menos importante. As aventuras de Tintim - o segredo do Licorne é um filme feito sobre medida para toda a família, artesanalmente criado por pessoas que entendem muito bem de entretenimento.

O roteiro segue Tintim e Milu em seu primeiro encontro com o beberão Capitão Haddock, que ajudará o repórter a descobrir os segredos que estão guardados em uma miniatura de um navio de guerra - o Licorne, do título - que tem ligação direta com os antepassados do capitão e do vilão Sakharine. Cheio de sequencias de ação de tirar o fôlego, As aventuras de Tintim prende o expectador do início ao fim, com a galeria de personagens inesquecíveis de Hergé muito bem representada pelos atores "por trás" da animação, entre eles o veterano Andy Serkis, que além de Haddock, já viveu outros tipos marcantes desta tecnologia, como o Gollum de O senhor dos anéis e o macaco César no novo Planeta dos Macacos - a origem.

Quem é fã da obra de Hergé sabe que Tintim não é exatamente uma leitura para crianças. Ainda bem que Spielberg aprendeu a lição e não suaviza algumas passagens mais intensas, como as diversas perseguições com tiroteios (o protagonista, como nos quadrinhos, faz uso de uma pistola para se defender dos vilões). Em O segredo do Licorne, o diretor é audacioso e faz seus personagens sangrarem (algo dificílimo de se ver em um filme animado direcionado para a família). John Williams também se mostra inspirado na composição da trilha, e parece ter destinado todo seu esforço para este aqui (em detrimento ao outro filme do amigo, Cavalo de Gierra, em que o mestre entregou um trabalho bastante burocrático).

Apesar de não ter se saído bem nas bilheterias americanas, a continuação dos planos de Spielberg e Jackson para uma trilogia de Tintim está mais do que garantida pela bilheteria mundial (o filme é um grande sucesso na Europa, terra natal do criador do personagem). Desde que siga este caminho e nos entregue uma aventura cheia de ação e piadas na medida, com personagens cativantes e cenários deslumbrantes, mal posso esperar pela hora de encontrar Tintim na tela grande novamente. O cinema de animação abrindo uma nova porta, e se consolidando como gênero indispensável do Cinema.

Cotação: ***

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