Crítica: Jurassic Park

Ninguém que ama de verdade o Cinema de entretenimento vai esquecer o verão de 1992. Naquele ano, das mentes brilhantes de caras como Michael Crichton, John Williams e Steven Spielberg, surgia o filme que se tornaria um marco em vários aspectos na cultura pop, seja pela sua importância para a indústria de efeitos especiais, sua relevância na cadeia midiática de vendas de produtos baseados em sua marca, ou mesmo pelo brilhantismo de sua direção de arte, design de produção e efeitos sonoros: Jurassic Park é um divisor de águas do Cinema, um filme tão importante para esta grande indústria quanto qualquer outro já realizado.

Obviamente, minhas palavras são proferidas por demasiada paixão: foi por causa do Parque Jurássico que abri as portas para o maravilhoso mundo da sétima arte. O filme era para mim uma chance de ver na tela grande as incríveis criaturas que foram os dinossauros - bichos pelos quais sempre fui fascinado. E foi com este intuito que entrei naquela sala de cinema pela primeira vez, sem jamais imaginar o que mais me seria provido naquela sessão. Jurassic Park era uma verdadeira aula de entretenimento, um filme feito nos mínimos detalhes para provocar emoções diversas, das mais simples às mais complexas, na platéia. Suas imagens, montagem, interpretações... Spielberg entregou muito mais do que um simples documentário sobre esses seres gigantes que desapareceram da face da terra há tantos anos: ele criou uma aventura clássica, um épico moderno que se utilizava do que havia de melhor em tecnologia na época.


Difícil é alguém hoje ainda não conhecer o filme, mas é triste constatar que muitos não conhecem a sua origem, ou mesmo o escritor do romance original: Michael Crichton. O grande autor de ficção científica faleceu em 2008, pouco depois de lançar seu último trabalho, Next. Talentoso no manejo de histórias que tinham embasamento teórico e personagens cativantes, ele entregou ao mundo, além dos best-sellers O Parque dos Dinossauros e O Mundo Perdido, obras como Congo, Sol Nascente, Esfera e Estado de medo. Muitos de seus livros viraram filmes, inclusive tendo sua participação nos scripts. A amizade com Spielberg rendeu este filme magnânimo baseado em uma de suas mais adoradas criações.

O sucesso de Jurassic Park revelou ao mundo o que o Cinema era capaz de fazer como indústria. O filme se tornou naquele ano a maior bilheteria da história - e até hoje está entre os 20 primeiros filmes em arrecadação - gerando valores absurdos tanto nos EUA como no restante do mundo. Este sucesso é justificável se considerarmos, sem pensar apenas no filme, os nomes de sua ficha técnica. Os melhores do ramo trabalharam com Spielberg em Jurassic Park, e entre eles um veterano colaborador do diretor entregou mais um trabalho que entrou para a história: John Williams. Sua trilha composta para o filme é tão fiel à grandiosidade do projeto que sempre é lembrada como referência quanto se fala de banda sonora para cinema, ao lado de outras grandes composições do mestre, tais quais os temas de Star Wars, Tubarão, Indiana Jones e até mesmo da recente série Harry Potter. Escutar Journey to the island e não se lambrar deste filme é praticamente impossível...

Para levar às telas o romance da forma mais fiel possível, Spielberg precisou - por mais incrível que pareça! - se limitar ao que era factível se criar com a tecnologia da época. E com a ajuda da IL&M e do grande Rick Carter (coincidentemente morto também em 2008), foram criadas as criaturas digitais e seus moldes "reais". Nem todos os dinossauros descritos por Michael Crichton com perfeição nas páginas do livro conseguiram chegar às telas dos cinemas, mas alguns ainda viram à luz do dia nas continuações (os pequenos Compsognatus e os Estegossauros deveriam fazer parte do filme original, mas só apareceram quatro anos depois em O mundo perdido: Jurassic Park). O mesmo ocorreu com algumas passagens do livro, por demais complexas, que somente vieram a ser aproveitadas posteriormente (a cena do rio de Jurassic Park 3 é o exemplo mais claro). Mesmo com estas alterações, que até envolveram as características físicas de alguns personagens, Spielberg criou passagens assustadoramente perfeitas em seu filme, como as imortais cenas do aparecimento do T. Rex e o ataque aos carros dos visitantes ou a cozinha com as crianças e os mortais Velociraptores. Adrenalina era pouco para quem estava sentado nas cadeiras dos cinemas!

Diferente de alguns de seus colegas visionários, Spielberg também angaria os méritos de ser um grande diretor de atores. Não por menos, transforma as interpretações de veteranos como Richard Attenborough em momentos marcantes, bem como constrói com genialidade personagens complexos como o Ian Malcolm de Jeff Goldblum. É impressionante para quem leu o livro notar como estes personagens foram trazidos à vida com perfeição. Não menos em conta, obviamente, deve ser levada a atuação dos protagonistas Sam Neil e Laura Dern: o paleontólogo Alan Grant e a paleobotânica Ellie Sattler são aqueles personagens pelos quais você pensa que vale a pena se assistir um filme. Ariana Richards e Joseph Mazzello, naquela época crianças, também não deixaram a peteca cair, e tiveram sorte de participar de um projeto tão enorme e no qual seus personagens eram tão relevantes (os dois atores estão em nada mais nada menos que todas! as melhores cenas do longa). Trabalhar com Steven Spielberg é um sonho que qualquer pessoa que tem uma mínima ligação com o Cinema não pode deixar em nenhum momento de ter...

Você deve estar se perguntando: qual o motivo desta crítica agora? Bom, nunca é tarde para se escrever sobre um filme como Jurassic Park. Talvez a alegria de ter visto o filme mais bonito do que nunca no formato de alta definição - este mês teremos o lançamento em blu-ray no nosso país! - tenha despertado com mais força este sentimento de gratidão ao filme que me ensinou a gostar de filmes. Pode ser até que você leia e ache os elogios rasgados que faço um exagero, ou até concorde com alguns deles. Não importa. Se ao menos eu conseguir que você tenha vontade de ver este sucesso mais uma vez, já estará de bom tamanho. Afinal de contas, nem todo mundo é apaixonado ao ponto de pegar o canudo na formatura ao som da trilha sonora eterna de John Williams, mas todos temos suficiente senso crítico para reverenciar um filme que merece ser chamado de clássico.

Obrigado, Jurassic Park.

Cotação: ****


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