Crítica: Amanhecer - parte 1

Mais uma saga extremamente lucrativa está chegando ao fim em Hollywood. Depois da Warner perder sua mina de ouro, Harry Potter, é a vez de um estúdio bem menor dar adeus a uma série de filmes que terminará com um último capítulo dividido em duas partes. Preparem-se fãs, pois se novamente isto der certo (como tudo garante que irá acontecer), está feita a nova modinha do cinema americano.

Questões mercadológicas à parte, a divisão fez bem para Amanhecer - parte 1. Por questões diversas. Primeiramente, por aplacar a sede de Crepúsculo das fanzocas adolescentes com um filme a mais de vampiros pálidos românticos nas telas; e segundo, e mais importante, por dar uma chance de desenvolver de maneira mais abrangente certos aspectos da história, mesmo que para muitos fique a impressão de uma baita enrolação.


O quarto livro da saga de vampiros da escritora Stephenie Mayer era o maior e realmente mais complexo de ser adaptado. De narrativa longa e estratificada, o que o faz parecer mais de um livro dentro de um, Amanhecer ainda tinha um tom um pouco diferente dos anteriores, onde o romantismo exacerbado era substituído por uma trama mais complexa e, em alguns aspectos, mais pesada e adulta. Por incrível que pareça, esta mudança não ficou tão clara nesta primeira parte da adaptação do livro, em que o diretor Bill Condon preferiu pegar leve para não correr o risco de afastar as adolescentes - que são a grande fatia de público da saga. O que se vê, para quem conhece o estilo e a carreira do diretor, é que ele traiu a si mesmo e a sua forma de fazer cinema, mesmo entregando o melhor filme da série até aqui.

Bill Condon tem uma filmografia invejável, apesar de pouco extensa. São dele sucessos de crítica como Deuses e Monstros, Dreamgrils e Kinsey - vamos falar de sexo. Além destes, tem crédito no vitorioso do Oscar Chicago, como roteirista. Sua capacidade de tocar em assuntos polêmicos no seus filmes - tais como sexo, incesto e homossexualidade - teria sido credencial para que ele fosse escolhido para fazer Amanhecer. Muito estranho que o filme tenha sido tão conservador tendo por trás das câmeras um diretor como ele. As cenas tão esperadas pelo público - como a noite de núpcias e a bizarra gestação e parto da protagonista - não tem o impacto que deveriam e as soluções de linguagem utilizadas para atenuar as imagens acabam cortando parte do clima que esta primeira parte deveria ter.

Em termos de qualidade das atuações, não houve muita melhora em relação aos anteriores. Talvez a grande sacada do diretor tenha sido aproveitar um pouco melhor os coadjuvantes (Kellan Lutz e Anna Kendrick estão muito em voga em Hollywood para continuarem fazendo apenas pontinhas), mas o trio principal permanece o mesmo, e isso não deve soar como elogio: Kristen Stewart mantém a cara de boba de Bella Swan; Robert Pattinson ainda está mais maquiado que muita menina e totalmente sem graça como Edward Cullen; e Taylor Lautner continua mostrando mais o torso do que atuação como Jacob Black. Tecnicamente, o quadro é o mesmo, o que considerando a mudança de cenário em boa parte da trama - as cenas no Rio de Janeiro são risíveis, por sinal - é uma baita falha. Bill Condon também mostrou não estar muito familiarizado com as composições escolhidas para comporem a trilha sonora do seu filme: em diversos momentos, a música parece não enquadrar com o que está sendo exibido, causando estranheza a observadores mais atentos nesta questão.

Mas dentre tantos poréns, o que faz deste Amanhecer - parte 1, o melhor filme da saga? Bem, ele se favorece claramente da fraqueza narrativa dos seus antecessores, e de algumas sacadas do roteiro que fazem a diferença, como a escolha do "corte" para a parte 2, e a cena pós-créditos que atiça a curiosidade para a derradeira sequencia, que, como nos livros, terá muito mais ação do que romance mela cueca - e deve agradar um pouco mais o público masculino.

Amanhecer - parte 1 cumpre seu papel de ser um aperitivo de luxo para o final da saga de vampiros mais controversa da cultura pop recente. Se o último capítulo vai prestar, só Deus sabe por enquanto, e nós saberemos no próximo - e concorrido - verão americano. Fica apenas a dica para aqueles que esperam um filmaço: não procure por isso em Crepúsculo. Os filmes são entretenimento raso, e só. Prova de que não é apenas um grande diretor que faz a diferença se o trabalho não tiver a dose necessária de desafio e liberdade de criação. Filme de estúdio é isso aí.

Cotação: **

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