Crítica: Contágio

Steven Soderbergh, pode-se dizer, é um cara que sabe cultivar boas amizades. Basta você pegar a ficha técnica de seus filmes e ler a lista de atores, sempre recheada de grandes ícones do cinema hollywoodiano. Adepto do cinema alternativo (que o consagrou com Sexo, mentiras e videotape), vez ou outra o diretor produz filmes comerciais - pagando um cachê ínfimo para os "amigos" - como forma de angariar fundos para seus projetos mais autorais. Assim foi com a série 11 homens e um segredo, que entre um filme e outro gerou sucessos como Traffic e Erin Brokovich.

Tendo falado tudo isto, fica fácil dizer o motivo pelo qual Contágio se tornou um filme muito esperado por mim: é um filme mais comercial, embora tenha um jeitinho de filme alternativo e flerte com os documentários, e é também protagonizado por várias estrelas e beldades como Kate Winslet e Marion Cottilard. Mas não espere um filmaço desta fez: Contágio funciona como um filme comercial menor do diretor, mas decepciona no quesito mais importante: narrativa.


Decepcionar não significa dizer que a narrativa é ruim: equivocada seria o termo ideal. O diretor optou por desenvolver um filme de diversas histórias contadas em paralelo, com personagens que tem em comum o mote principal da história: uma epidemia mortal que está se espalhando pelo globo com uma velocidade espantosa. A construção do filme, mais especificamente sua montagem, são excelentes. No entanto, o enredo não capricha no desenvolvimento daqueles personagens, o que para um filme que quer chocar por ter como base um tema relevante e humano, é um baita tiro no pé. Falta identificação do público com muitos personagens, e isso em nenhum momento é culpa dos atores.

E que atores! Um time como poucos é visto nesta produção. Kate Winslet é a que mais salta aos olhos, dado seu grande talento e o recente reconhecimento com o Oscar de melhor atriz, mas outras veteranas da cerimônia estão aqui e uma em especial merece reconhecimento: Gywneth Paltrow. Sou um dos muitos que ainda está engasgado com a vitória da moça no Oscar pelo papel em Shakespeare Apaixonado (escrever o nome deste filme dá até azar!), mas finalmente posso dizer que ela sabe atuar, e apesar de fazer muito pouco no filme, faz de uma forma espetacular, e algumas das mais marcantes sequencias se devem a ela. No time masculino, temos Matt Damon muito bem em cena, e justificando a sua excelente fase na carreira (infelizmente os personagens mais equivocados do filme fazem parte de seu pedaço da história); Jude Law, aparecendo muito diferente do que o costume, mas ainda competente; e Laurence Fishbourne, que faz o possível para tornar seu insosso personagem levemente interessante.

Se pensarmos no filme como uma forma de alerta à sociedade, posso dizer que ele funciona perfeitamente. Steven Soderbergh apresenta algumas cenas que são chocantes e impressionam de verdade, embora algumas vezes semelhanças e referências ao recente Ensaio sobre a cegueira sejam mais do que óbvias. A forma semi-documentarial que o cineasta escolheu para apresentar trechos de sua história contribui em muito para tornar o filme mais interessante. Contágio é um filme que consegue chocar, mas não é pesado demais para o grande público. Prova disso foram as cópias IMAX que foram lançadas em circuito, o que geralmente não se faz com filme menos pretensiosos.

Qual será o próximo trabalho do diretor? Se seguir sua tendência, é bem capaz de um novo filme de festival surgir por aí. Alternativo ou não, o cinema de Soderbergh é legal de ser visto, pois este é um dos poucos diretores que mesmo errando, consegue acertar no final. Parece contrastante? Veja o filme e depois me conta.

Cotação: ***

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