Crítica: Cowboys & Aliens

Ousadia é algo que deve ser encorajado. Quando se trata de cinema, então, nem se fala. Fugir do lugar comum em uma indústria cada vez mais interessada em grandes lucros é privilégio de poucos, e Jon Favreau vai dever para sempre ao Marvel Studios e ao sucesso de Homem de Ferro por ter conseguido chegar ao status de um desses caras que podem ditar algumas cartas no jogo milionário que é o dos grandes filmes de estúdio do cinema ianque.

Obviamente que ser apadrinhado por Steven Spielberg sempre ajuda. Aliás, o que mais impressiona no início da projeção de Cowboys & Aliens é exatamente a escala deste projeto: nada mais, nada menos que três grandes estúdios estavam de alguma forma envolvidos, entre produção e distribuição: Paramount, Dreamworks e Universal.

Tantos envolvidos é justificável se pararmos para pensar no tamanho do risco envolvido, afinal de contas, misturar western e invasores de outro planeta é, desde sempre, uma escolha inusitada. Apesar da audiência americana não ter se empolgado com a empreitada, fica uma dica: dê sua chance à Cowboys & Aliens, pois trata-de se um dos blockbusters mais legais desta safra de 2011.


Os pontos positivos do filme são vários, a começar pelo argumento, que é baseado em uma história em quadrinhos homônima: um homem acorda no meio do oeste americano completamente desmemoriado, e com um estranho artefato em sua mão esquerda. Ao se dirigir a uma cidadela que sobrevive graças à ajuda financeira de um poderoso ex-coronel do exército americano, ele acaba tendo problemas com o filho único do homem, que se aproveita da influência do pai para intimidar os moradores do local. Além disso, é um foragido da lei, embora desconheça completamente o motivo. Mais western do que isso, impossível. Mas é aí que entra a grande sacada da história: a cidade é atacada de uma hora para outra por estranhos objetos vindos do espaço, moradores são abduzidos, e o forasteiro e o coronel terão de se unir a um grupo inusitado - que inclui uma estranha mulher, um garoto a procura do avô, bandidos renegados, índios apaches e um cão pastor - para conseguir combater os invasores e trazer de volta os sequestrados.

Não fosse a pulseira high-tech no pulso de Daniel Craig, as armas dos personagens seriam as clássicas pistolas, facas e flechas indígenas. Não estranhe o fato de um bando de cowboys partir para cima de seres espaciais: o roteiro desenvolve de maneira inteligente este embate, explica de forma satisfatória a possibilidade de uma vitória humana (não é spoiler dizer que neste tipo de filme sempre saímos vencedores, não é?), e os personagens são todos interessantes e bem desenvolvidos. Ponto para Jon Favreau, que desde sempre mostrou um talento nato para a direção de atores.

A parte técnica do filme é um deleite para os olhos, a começar pela fotografia, que se aproveita com esmero das paisagens exóticas do oeste americano. Os enquadramentos do fotógrafo Matthew Libatique - que já havia mostrado seu grande talento em filmes como Fonte da Vida e Cisne Negro - mostram-se cada vez mais impressionantes, e o cara é colaborador frequente do diretor, tendo trabalhado também nos dois filmes do Homem de Ferro. Além da fotografia, a edição de som é bem estruturada, e a montagem funciona tanto nas sequências iniciais - quando o foco é a apresentação dos personagens bem ao estilo de clássicos do cinema western - como no agitado terceiro ato, quando está no ápice a batalha entre os cowboys e os alienígenas.

Não por menos, deve-se bater palmas à produção do longa pela excelente seleção de elenco. Daniel Craig repete os trejeitos duros de seu James Bond, e dá ao protagonista um verdadeiro ar de homem durão do oeste. Harrison Ford aproveita sua canastrice para compor seu personagem de maneira exemplar, e tem algumas das cenas mais legais do longa (fique de olho nos diálogos do ator, que são os melhores do script). Como alívio cômico, Sam Rockwell faz a sua parte, assim como Paul Dano - resta ao jovem ator fugir um pouco do esteriótipo de personagens afetados. Olivia Wilde, a Thirteen de House, faz a mocinha Ella, que além de guardar um dos segredos do filme, tem olhos que são capazes de fazer qualquer um se manter ligado no que está acontecendo na tela.

O filme foi um fracasso de público nos EUA, e até o momento arrecadou parcos 147 milhões nas bilheterias mundiais, mas deve alcançar seu custo de produção de 163 milhões até o fim da carreira nos cinemas. De qualquer forma, não é um resultado que empolga a indústria do cinema. Uma pena, pois este tipo de projeto audacioso abriria portas interessantes para o cinemão hollywoodiano, que está carente de originalidade e está entregando-se pouco a pouco à obviedades. Vamos esperar que o público coloque a mão no coração e julgue melhor os filmes antes de assisti-los. Às vezes é muito mais saudável entrar na sala escura com zero de expectativa e sair com um sorriso de satisfação no rosto.

Cotação: ***

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