Critica: Melancolia

É muito comum para os fãs de Lars Von Trier escutar em rodas de discussão acusações como as de que "seu gosto é muito sofisticado" ou "você quer posar de intelectual". Geralmente essas frases vem em tom de deboche, ironia ou simplesmente indiferença. A questão é perfeitamente compreensível; o cinema do diretor dinamarquês realmente não foi feito para muitos. Para enxergar a natureza artística deste gênio, é preciso - além de real gosto pela sétima arte - entregar-se de corpo e alma ao sentimento e as emoções na sala escura. E o grande público está muito longe deste tipo de experiência.

Mas a má reputação dos filmes de Lars Von Trier não vem apenas da falta de sensibilidade cinematográfica do público. Dono de um temperamento difícil, e por vezes demasiadamente irônico em seu relacionamento com a imprensa, o dinamarquês é figura comum nos tablóides, geralmente causando escândalos. A sua última travessura ocorreu exatamente na divulgação de seu último filme, no festival de Cannes. Ao fazer um comentário debochado e, por que não, infeliz sobre Hitler e o Nazismo, o diretor foi expulso da Riviera e considerado persona non grata para a organização do evento.

Para aqueles que admiram sua arte, no entanto, todo o resto é pura bobagem. Melancolia é mais um excelente trabalho deste cara que sabe como ninguém manipular emoções utilizando imagens belíssimas, o poder de uma forte trilha sonora e diálogos profundos e bem desenvolvidos para seus personagens.


Muito pouco da natureza do Dogma 95 é visto neste novo trabalho. O movimento, que surgiu em um manifesto que propunha os ideais de um cinema mais realista e menos comercial, foi a base para os maiores sucessos de crítica de Lars Von Trier - entre os quais estão o excelente Os idiotas e o badalado Dogville. Os filmes do Dogma 95 tinham fotografias simples, movimentos de câmera não-ortodoxos e pouco se utilizavam de trucagens ou efeitos para chamar a atenção da platéia. Em Melancolia, mantém-se este espírito apenas no desenvolvimento da narrativa, com aquele que deve ser um dos melhores roteiros já escritos pelo cineasta.

Melancolia é um estudo filosófico do diretor sobre a natureza dos sentimentos humanos, mais especificamente sobre a forma que cada um tem de reagir às diversas situações que nos cercam, sejam as mais simples - como os sentimentos e emoções de uma noiva durante a realização de sua festa de casamento - ou aquelas mais complexas e, por que não, surreais - o medo da morte frente a um inevitável cataclisma. Melancolia é um drama disfarçado de filme catástrofe. É um fim dos tempos à Lars Von Trier.

Belíssimo em sua concepção visual, que tem nos planos a sua maior arma - o diretor utilizou, nas primeiras sequencias, pinturas famosas como inspiração para a realização do seu prólogo -, Melancolia é de uma perfeição técnica que só não emociona os corações mais frios. Mestre no manejo da trilha sonora como personagem, o cineasta aqui usa temas clássicos (entre eles Tristão e Isolda, de Richard Wagner) que complementam de forma perfeita as imagens que são jogadas para a platéia.

No filme dividido em dois atos, Kristen Dunst é Justine, uma publicitária talentosa que está realizando o sonho de se casar com seu grande amor, na festa preparada com esmero pela irmã, Claire (Charlotte Gainsbourg). Mas a felicidade de Justine é apenas fachada de uma depressão intensa que a jovem vive com o desenrolar de sua vida, que ela acredita poder mudar tornando-se uma mulher casada. A segunda parte, focada nos acontecimentos posteriores ao casamento, acompanha a jornada de Claire para administrar a doença da irmã com a eminente catástrofe que se aproxima: o planeta Melancolia, que durante séculos esteve escondido atrás do sol, alterou sua rota e agora aproxima-se perigosamente da Terra.

Lars Von Trier aproveita seu roteiro para discutir de forma contundente a condição humana frente ao que se considera o senso comum. Para Claire e o marido, um respeitado astrônomo, Justine está desequilibrada e não consegue controlar-se frente às situações adversas que ocorrem em sua vida. Num jogo interessante de inversão de papéis, o diretor nos mostra que não é tão simples e clara esta noção de certo e errado nos sentimentos dos personagens, provocando situações intensas que possibilitam um show de atuações, princialmente de suas duas protagonistas: Kristen Dunst está soberba, e entende-se perfeitamente o motivo do juri de Cannes ter se rendido ao seu talento e a premiado como melhor atriz; e Charlotte Gainsbourg entrega aqui uma atuação tão intensa quanto a vista em Anti Cristo.

O título não poderia ser mais adequado. Ao assistir Melancolia, você percebe rapidamente que não se trata de uma experiência cinematográfica qualquer. Mesmo que aos primeiros minutos já se insinue os acontecimentos finais, isto só ajuda a situar o expectador frente a aura depressiva que é premissa do roteiro. O mundo literalmente irá terminar ao final deste filme impressionante, e você vai agradecer aplaudindo de pé por ter tomado parte.

Cotação: ****

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