Crítica: Harry Potter e as Relíquias da Morte - Parte 2

Me lembro como se fosse hoje daquele 16 de novembro de 2001. Uma multidão animadíssima se enfileirava em frente a um cinema de um bairro de classe média carioca, aguardando para pegar um bom lugar, afinal de contas, àquela época ainda não haviam se tocado da grande ideia que era as cadeiras marcadas nos cinemas. A espera era longa, quase 2 horas. Quando as portas se abriram, correram em disparada crianças, jovens e adultos, todos parecendo ter a mesma idade. Jeans e camisetas se misturavam a vestes longas de cor negra, bonés davam lugar a chapéus pontudos de papelão. No entanto, uma coisa era idêntica e imutável: os rostos de todos, que transbordavam a alegria por estarem ali.

Não é fácil transpor em palavras uma paixão. Seja ela por um pai e uma mãe. Por uma garota. Pela carreira. Alguns podem dizer ser tolo que existam apaixonados por uma obra de ficção. Mas eles existem. E naquela noite de novembro, 10 anos atrás, quando uma coruja apareceu na tela sentada em uma placa de madeira com os dizeres "Rua dos Alfeneiros", e aquela explosão de vivas rompeu pela sala de cinema, eu sabia que estava presenciando a maturação de uma paixão que já havia sido plantada alguns anos antes, quando um livro que contava a história de um garoto bruxo de cicatriz na testa foi lançado, em 1997.

Falar de Harry Potter é falar de algo sagrado para seus fãs espalhados por todo o mundo, que devoraram vorazmente as mais de 5.000 páginas escritas pela incansável e maravilhosa J. K. Rowling. Hollywood, em um sopro de inspiração que nunca se viu em um trabalho deste tipo, conseguiu entender o que era esta paixão. E após sete filmes, conseguiu levar ao final uma das sagas mais rentáveis e longevas da história do cinema. Harry Potter e as Relíquias da Morte - Parte 2 é o fim de uma era para tantos e tantos fãs apaixonados. Um final que merecia um tratamento espetacular, tal qual foi este que recebeu.


A saga de Harry Potter foi construída no cinema por uma junção especial de talentos. Nos dois primeiros longas, Chris Columbus capturou toda a magia que existia nos livros para criar um mundo mágico cheio de detalhes nas telas dos cinemas. Chamou para compor seu elenco - por exigência da autora - um time de atores britânicos que era um espetáculo a parte, e que a partir dali, se tornou definitivamente parte do imaginário dos fãs - era impossível abrir uma página do livro e não vincular Snape a Alan Rickman ou Minerva McGonagall à veterana Maggie Smith. O diretor também lançou o elenco infantil, Daniel Radcliff, Emma Watson e Rupert Grint, os protagonistas de um projeto que se tornou a maior galinha de ovos de ouro já concebida pela Warner Bros. Foram escolhas que definiram desde aquele momento qual seria o tom da transformação de todos os livros seguintes em celulóide.

A série continuou entre altos e baixos, variando entre cineastas autorais - como Alfonso Cuarón, que mudou o tom de fantasia e contos de fada para algo mais sombrio já no terceiro filme, Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban - e realizadores mais preguiçosos - Mike Newell, que fez apenas um dever de casa simples em Harry Potter e o cálice de fogo. Mas foi no quinto filme que a série definiu claramente seu rumo, quando assumiu a cadeira de diretor o britânico David Yates. Apaixonado pelos livros, ele prometeu entregar uma visão mais empolgante e dinâmica da história, começando com o pé direito por Harry Potter e a ordem da fênix, e chegando até o épico final.

O que passou a ser visto nas telas de dois em dois anos foram trabalhos apaixonados de verdadeiros entusiastas do material original. Com os filmes, Harry Potter atingiu um patamar ainda maior, tornando-se universal. E, por decisão mercadológica ou não, a Warner e o produtor David Neyman resolveram dividir o último livro em duas aventuras no cinema. Quando o último fotograma de Relíquias de Morte 2 termina, você consegue entender que, fosse para ganhar mais dinheiro ou não, a decisão de dividir o filme em duas partes foi acertadíssima. Um presente para todos os fãs.

David Yates não fez apenas uma adaptação nesta última parte da história: o diretor utilizou a seu favor todos os mais modernos recursos de linguagem cinematográfica para criar não apenas todo aquele universo, mas elevá-lo a outro patamar. Harry Potter e as Relíquias da Morte - Parte 2 é o filme sonhado por todos aqueles que são verdadeiramente apaixonados por esta criação incrível de J. K. Rowling: é fiel à obra original, adapta o que é necessário para funcionar no cinema e transborda emoção para o público mais e mais a cada momento.

Seria tolice dizer que o filme é do trio protagonista. Embora visivelmente maduros em seus personagens - principalmente Emma e Rupert - o fim da saga é uma chance de se explorar ainda mais a joia máxima deste grande sucesso cinematográfico: seu grande elenco, que se manteve quase que 100% completo em mais de 10 anos de produção (a perda mais sentida foi a de Richard Harris, o Dumbledore, logo depois de finalizar o trabalho em Harry Potter e a Câmara Secreta). A série Harry Potter conseguiu este feito extraordinário muito em parte ao carinho de seus atores, que se entregaram de corpo e alma aos personagens que interpretam. Esta emoção pode ser sentida em muitos deles nesta última parte, principalmente em Neville, Minerva e Snape, com maior destaque para o último. Alan Rickman ganha seu presente ao viver aqui de forma ainda mais brilhante o amargurado professor de poções. Sua atuação é vigorosa e deve tirar muitas lágrimas dos olhos dos mais sensíveis.

Não faltam destaques na trama quanto à qualidade técnica. Agitado do início aos últimos frames - o que é justificado já que todas as passagens de ação do último livro acabaram ficando para esta segunda parte -, o filme acerta por não perder o ritmo graças a uma montagem que agrega bem os acontecimentos presentes, as memórias que infestam a cabeça de Harry e seus delírios acerca das Horcruxes (recurso, aliás, que fechou com sucesso um buraco deixado pelo roteiro dos filmes anteriores e parecia ser difícil de sanar). Utilizando palhetas de cores mais densas e uma fotografia inspirada, o diretor consegue transpor fielmente a tensão que era provocada quando virávamos cada página nos livros, principalmente durante a batalha de Hogwarts. São no castelo, aliás, que são feitas as tomadas mais belas de toda a série, e que desde já credenciam o filme às estatuetas técnicas de direção de arte e fotografia no próximo Oscar.

As mudanças na base da história eram necessárias, e foram feitas. Muito da dinâmica do último filme fazia referência a acontecimentos passados, a notícias de jornal e livros que contavam a história deste e de outro personagem. Não é nada fácil tratar este tipo de história em forma de roteiro de cinema, e é por isso que temos que bater palmas para o roteirista Steve Kloves. Ele soube mostrar o que era necessário ao grande público e deixou as pontas para os iniciados e fãs dos acontecimentos do livro que eram menos importantes para a narrativa principal. Em suma, ao assistir Harry Potter e as Relíquias da Morte - Parte 2 você verá o livro lá, exatamente como é. Mas isto é cinema.

O tempo na sessão ia passando e um sentimento dúbio devia estar se formando na cabeça de todos que estavam ali, quem sabe até alguns outros daquela sala de cinema lá de 2001. Para mim, era uma mescla da curiosidade de saber como tudo aquilo ia terminar, com uma tristeza profunda, pois aquele era irremediavelmente o fim. Quando o epílogo começou, a sensação se tornou ainda mais forte. Ao ressoar ao fundo aquela trilha incidental tão conhecida, todos percebemos que estava realmente terminando. Com uma pontada de nostalgia, e um sorriso que rivalizava com a sensação de perda, vemos o expresso de Hogwarts deixar King´s Cross pela última vez. Lembra que eu disse no início desse texto que era difícil explicar uma paixão por uma obra de ficção? Espero que eu tenha conseguido mostrar que, assim como a lição que Harry deixou nos livros, as coisas podem ser difíceis, mas não impossíveis se você realmente acredita. Harry Potter pode ter chegado ao fim, mas a paixão maior, o cinema, prevalece.

Cotação: ****

Comentários

  1. O melhor filme, sem sombra de dúvida. Tb concordo que por mais que eles quisessem ganhar mais e mais dinheiro com "a galinha dos ovos de ouro", como vc diz, foi uma escolha perfeita ter dividido o filme. AMEI! Achei que os acontecimentos nesse ficaram mais "televisíveis"vamos assim dizer, sem aquela velocidade que acontecia nos anteriores, o que fazia parecer uma grande correria para caber tudo no script.
    Ótima sua crítica

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