Crítica: X-Men - Primeira Classe

Fazer um filme baseado em personagens de histórias em quadrinhos era motivo de chacota para diretores e astros até algum tempo tempo atrás. Longe de ter sido um exagero, afinal de contas, este gênero cinematográfico estava entregue a roteiros infantis, visual exagerado e de mal gosto, e em sua grande parte estrelado por tipos canastrões que jamais conseguiriam desvincular-se do personagem. Haviam exceções, como os dois primeiros Superman, de Richard Donner, e os Batman de Tim Burton. Ambos, por sinal, personagens da DC Comics.

O fracasso de Batman e Robin, um desfile carnavalesco disfarçado de filme do morcego "cometido" por Joel Schumacher parecia ter fechado de vez as portas dos estúdios de Hollywood para a galera dos super poderes. Isto até Bryan Singer aparecer. O jovem cineasta, que ficou famoso após lançar o thriller Os suspeitos, era um fã apaixonado dos mutantes da Marvel Comics, e tinha uma idéia audaciosa para levar as crias de Stan Lee, Steve Ditko e Jack Kirby para as telas: uma trama adulta, com um roteiro que aproximava os personagens do mundo real e carregava em metáforas sobre o preconceito racial e social.

Qualquer pessoa que não esteve em coma nos últimos 10 anos sabe o que aconteceu. Os X-men tomaram de jeito os cinemas no mundo todo, provaram que a Marvel poderia conquistar o respeito do público nas telonas (no passado só haviam sido lançados filmes toscos com os heróis da editora) e abriram a porteira para uma invasão de filmes de super heróis todos os anos nos cinemas.

Onze anos depois de sua primeira incursão nas telas, os X-Men estão de volta. Mais uma vez ousando, Bryan Singer se reuniu a Matthew Vaughn e propôs um quadro inusitado: retroceder a cronologia dos heróis no tempo e contar a origem dos pupilos de Xavier, e, também, a do próprio professor X e seu nêmesis, Magneto. Assim surgiu X-Men Primeira Classe.



Como a premissa básica da equipe de mutantes é a evolução, X-Men Primeira Classe chega em um ótimo momento, em que os filmes de quadrinhos estão atingindo uma nova fase: a da perfeição da narrativa. E o filme é um exemplar mais do que memorável deste ápice do cinema de entretenimento baseado no conteúdo das HQs. Se Batman, o cavaleiro das trevas já havia provado que um filme de super herói poderia ser um produto infalível para todos os tipos de público e misturar gêneros sem cair nas armadilhas de falhas de roteiro e atuações canastras, agora esta tendência se intensifica. Uma mutação muito boa de se ver.

X-Men Primeira Classe não é tão diferente assim da trilogia original. O filme também fala de auto-descobertas, isolamento e preconceito, no entanto sua trama se desenvolve em paralelo a acontecimentos reais que foram marcos na história humana recente - a crise dos mísseis de Cuba, que quase desencadeou uma guerra atômica entre as duas super potências daquele tempo, os EUA e a União Soviética. Nada melhor do que ambientar uma história de origem na época em que surgiram os célebres personagens; uma escolha mais do que acertada.

Era difícil não torcer o nariz para as notícias sobre o filme anteriormente ao seu lançamento. Imagens e pôsters de extremo mal gosto estavam inundando a internet e deixando os fãs furiosos. Apesar do primeira classe do título, os produtores optaram por uma seleção de personagens que não lembrava em nada esta formação clássica da equipe. Assistindo ao filme, tudo fica explicado: as imagens fora do contexto do longa eram realmente estranhas de se ver de forma isolada, e optou-se por personagens menos conhecidos do público para que o verdadeiro foco da história fosse a trinca Professor X, Magneto e Mística.

Garantir astros de calibre não é mais um problema para as adaptações de quadrinhos. E que diferença faz atuações inspiradas que respeitam o material original. Como Charles Xavier, James McAvoy é uma grande surpresa. O ator, que já havia provado em filmes como Desejo e Reparação que tinha talento de sobra, cria um Professor X jovial, mas que já guarda em si a maturidade que havia sido demonstrada por Patrick Stewart nos filmes anteriores. Michael Fassbender transborda ira e emoção nas mesmas doses como Magneto, criando um legado ainda mais impressionando para o personagem, que já havia ganho a aparência e voz altivas de Sir Ian McKellen. E Mística, mesmo sem a beleza e curvas de Rebecca Romijn, surge cheia de graça e inocência na pele da oscarizada Jennifer Lawrence (do recente Inverno da alma). As atuações fantásticas dos atores dão mais profundidade aos personagens, estabelecem suas motivações, e exploram suas fraquezas e medos. Tudo isso se deve à excelência do roteiro. Os embates entre os três garantem os melhores momentos do filme.

Não bastasse contar com uma trama bem amarrada, o diretor Matthew Vaughn ainda pôde exercer seu domínio sobre as características marcantes dos personagens, algo que era de se esperar de um cara que já trabalhou com eles nos quadrinhos. Sequencias como o primeiro vôo do Banshee, o treino do Destrutor em uma "miniatura" da Sala de Perigo, e as cenas finais durante o confronto com o Clube do Inferno e os mísseis americanos e soviéticos são pura HQ. Um bom vilão também ajuda, e o Sebastian Shaw de Kavin Bacon é um adversário de peso, e seus asseclas Maré Selvagem e Azazel garantem o bom uso dos efeitos visuais - que, por sinal, são os melhores da franquia mutante até aqui. E se X-Men Primeira Classe não tem Rebecca Romijn semi-nua para agradar aos marmanjos, January Jones cobre bem o posto nos trajes provocantes de Emma Frost. A musa de Mad Men sabe muito bem como interpretar uma beldade da década de 60.

O coração nerd de qualquer fã de quadrinhos vai disparar ao assistir ao filme, mas os cinéfilos mais sérios também ficarão contentes com a linguagem elegante que o diretor utilizou para contar sua história. Repleto de planos e enquadramentos modernosos, o filme ainda conta com uma montagem interessante em momentos importantes - principalmente nas cenas em que Xavier e Magneto estão recrutando os mutantes em viagens pelo mundo (com uma engraçada aparição relâmpago de Wolverine para os que já estão órfãos de ver o mutante de garras de adamantium nas telas dos cinemas) e naquelas que mostram o treinamento para aperfeiçoamento dos poderes dos jovens pupilos de Xavier. Nesta parte técnica, apenas um porém: a equipe de maquiadores poderia ter caprichado um pouco mais no visual do Fera, que não lembrou nem um pouco o excelente trabalho feito em X-men, o confronto final. Tudo bem que o personagem tinha que aparentar uma idade mais jovem, mas parecer um guepardo azul é um pouco demais...

Sem querer me abster de culpa, pois eu era um dos que desacreditavam totalmente no sucesso deste filme, posso dizer que é muito bom compartilhar que fui surpreendido positivamente. O cinema abraçou de vez as histórias em quadrinhos, e esse é um movimento sem volta, goste você ou não. O que importa não é a origem do tema, e sim como ele é tratado quando levado ao celulóide. Na espera pelos próximos passos de nossos heróis imaginários nas telas. E que a evolução continue.

Cotação: ****

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