Crítica: Transformers - o lado oculto da lua

Michael Bay deveria ganhar um prêmio por sua ousadia em continuar fazendo seu cinema sem se importar com as milhares de críticas que sempre recebe. Pudera. O diretor californiano é talvez um dos cineastas mais aloprados da atualidade. E este estilo caiu como uma luva para a Hasbro apostar alto numa franquia que, se algum dia foi subestimada, deve ter deixado muita gente morrendo de inveja.

Transformers chegou aos cinemas em 2007 com um pouco de barulho. Era a adaptação de uma linha de brinquedos, e o mercado cinematográfico como um todo olhava com desconfiança que este tipo de projeto pudesse dar resultado. Mas por trás de tudo, estava ninguém mais ninguém menos que Steven Spielberg, que assumindo a cadeira de produtor conseguiu trazer o investimento necessário para que a aventura fosse bancada e, como resultado, gerou mais de 1,5 bilhões de dólares com o filme e sua criticada sequência. Obviamente, com o sucesso era garantido fazer mais um. Assim, chegamos a Transformers - o lado oculto da lua.


Transformers tem tudo que um cara que é fã do estilo de Michael Bay adora: é dinâmico, acelerado, visualmente impressionante e completamente descerebrado. E para quem pensava que a lição das críticas quase unânimes ao roteiro execrável do segundo filme fossem fazer efeito, fiquem sabendo que parecem ter apenas feito cécegas no diretor. A trama de O lado oculto da lua retorna quase todos os clichês dos anteriores, continua focando os chatos personagens humanos em detrimento dos robôs e se resguarda depreciadamente em alívios cômicos irritantes e atores pagando mico em papéis completamente desnecessários (alguém me diga o que John Malkovich está fazendo neste filme?).

É uma pena para o mundo que Steven Spielberg tenha adotado Shia LaBeouf como seu novo protegido, algo semelhante ao que Martin Scorcese fez com Leonardo Di Caprio. A diferença: Leo melhorou assustadoramente com as lições de mestre Scorcese, enquanto o colega parece estar piorando à medida que os anos e a experiência vão aumentando. Tudo bem que o roteiro não ajuda, mas aguentar a cara de babaca do ator é um trabalho duro para aqueles que tinham a feliz idéia de acompanhar alucinadas lutas de robôs gigantes. Ainda bem que existe a sempre deslumbrante co-protagonista feminina, que desta vez não é Megan Fox - que teria se desentendido com o diretor ainda no set do filme anterior - mas a também gatíssima Rosie Huntington-Whiteley, que compensa LaBeouf com lábios capazes de hipnotizar qualquer marmanjo na sala de cinema.

A premissa inicial do roteiro era pra lá de interessante: colocando como pano de fundo a corrida espacial da década de 60, Transformers 3 começa com sequencias feitas com o auxílio de imagens de arquivo, e mostram uma nave alienígena dos Autobots que cai na região escura da lua, e acaba sendo o ponto de partida para o investimento americano e soviético na tecnologia que tornou possível o homem pisar pela primeira vez no satélite. Com direito até mesmo a participações especiais de figurões reais da NASA, a agência espacial americana, fica a impressão de que o filme irá decolar e apresentar uma história decente, mas descamba logo para o óbvio ululante quando retorna aos "dramas" do clã Witwicky e dos soldados americanos liderados novamente pelo inexpressivo Josh Duhamel e uma totalmente deslocada Frances McDormand.

O roteirista Ehren Kruger (também responsável pelo script de A vingança dos derrotados), mais uma vez tenta nos fazer acreditar que Sam permanece sendo um nerd derrotado, mas que é capaz de chamar atenção de um mulherão e tem dificuldades de achar emprego mesmo portando uma medalha de honra presenteada pelo presidente Obama (a piadinha que propõe a rivalidade de democratas e republicanos é uma das muitas que não funcionam no texto, mas que estranhamente tiram sorrisos abestalhados da platéia). A certo ponto, fica difícil de acreditar que as situações sejam repetidas tantas vezes, à exaustão, quase que idênticas ao que havia sido mostrado nos filmes anteriores. Haja incompetência.

Por outro lado, se estivermos falando de técnica - com destaque para efeitos especiais e a fotografia em 3D - a coisa muda de figura: Transformers - o lado oculto da lua é um deleite para os olhos, mas fica a ressalva de que os mesmos precisam estar treinados ao estilo Bay para aguentar as sequencias ininterruptas de perseguições, explosões e destruição que são apresentadas em um ritmo frenético. O 3D funciona muito bem para os ideais do filme, principalmente nas sequências iniciais em que há um prólogo sobre o destino de Cybertron, o planeta natal de Autobots e Decepticons. As tomadas aéreas e efeitos de profundidade são de fazer babar.

Para quem não é fã, o filme acaba funcionando como um meio de consumir muita pipoca e para aquelas sessões entre amigos, de grupos enormes, em que conversa vai, conversa vem, o que está acontecendo na tela fica em segundo plano. Não se preocupe, você não vai se perder ao voltar a prestar atenção. Michael Bay não fez Transformers pensando que seu público vai fazer altas discussões filosóficas sobre seu conteúdo; fez um filme para aqueles caras que adoram os bonecos, desenhos e outras coisas mais feitas a partir dos robôs e vão lotar os cinemas, mesmo reclamando que os dito cujos aparecem com testículos mecânicos ou penteados à lá Albert Einstein. E fez para aquele público que entra na sala escura só para passar o tempo com uma diversão agradável, e olhe lá. E quanto dinheiro acaba vindo daí!

Em suma, este que era uma dos filmes mais esperados de 2011 cumpriu seu papel: fechar uma vitoriosa trilogia, mesmo que repetindo erros e pecando na qualidade. Michael Bay e Shia LaBeouf já disseram que seus tempos de robôs gigantes chegaram ao fim, então quem sabe não é uma boa chance de acreditar que o próximo passa da série seja um reboot contando a história de Cybertron, apenas focando os robôs e não tendo nem cheiro de humanos para atrapalhar? Mande essa idéia para Steven Spielberg, assim, quem sabe, até ele se anima em dirigir, o que nos daria a esperança de que ao menos houvessem diálogos que não causassem vergonha numa criança semi-alfabetizada.

Cotação: **



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