Crítica: Carros 2

Era uma sessão de fim de tarde de domingo. Nas cadeiras, basicamente famílias. As mães sorriam e conversavam em grupo, satisfeitas. Alguns pais presentes fingiam certa distância, aparentando um cenográfico aborrecimento, para manter a seriedade. Os filhos, eufóricos, gritavam e pulavam nas cadeiras: "McQueen! McQueen!". E este que vos fala observava, empolgado, a mais uma sessão de um filme da Pixar que começava. E era óbvio que desta vez não era o público adulto que estava mais entusiasmado.

A fantasia de se assistir a um bom desenho animado nos cinemas foi acrescida de uma qualidade indiscutível quando a Pixar entrou no mercado. E ficamos mal acostumados! A animação foi alçada a um nível tão elevado que se tornava quase impossível acompanhar um filme deste estilo se não houvesse um roteiro interessante, bons personagens e, por que não, aquele quê a mais que deixava os adultos abestalhados, e os fazia praticamente voltar ao tempo, como se fossem novamente crianças. Foi assim com Ratatouille. Com Wall-e. Com Up, altas aventuras. E foi assim ano passado com Toy Story 3. A Pixar não entregava mais apenas animações, mas sim filmes completos que em muitas ocasiões eram os melhores do ano, ou estavam entre os 10 melhores. A animação se tornou um gênero que se aproximava cada vez mais das obras de arte.

E vem a Pixar anunciar a continuação de um de seus filmes menos aclamados pela crítica, mas que é um verdadeiro sucesso com os pimpolhos, seja com venda de brinquedos, seja com reprises e mais reprises nos aparelhos de DVD. O estúdio que mudou a forma de se fazer animação resolveu que estava na hora de priorizar o seu público mais exigente, e mais apaixonado. Carros 2 é uma festa para as crianças de todas as idades, até para aquela que se esconde bem lá dentro de você.


Mas longe de agradar apenas as crianças. Parece improvável dizer que a Pixar erra. Há quem diga que aconteceu com o primeiro Carros ou com Vida de Inseto. Bobagem. Todos os filmes da produtora tem um charme, um diferencial que os distingue de uma animação qualquer. Este novo filme que continua a história dos simpáticos personagens da fictícia Radiator Springs, uma cidadezinha perdida no meio da antológica rota 66, não é exceção. Para agradar aos adultos da poltrona, a Pixar criou um interessante roteiro que parodia os clássicos de espionagem, e colocou os veículos animados para explorarem o mundo. E as referências não são poucas, as gags funcionam, e fica difícil não manter um sorriso no rosto durante toda a projeção.

A trama acompanha Relâmpago McQueen e sua equipe em um desafio mundial, a Corrida dos Campeões, que reúne os maiores carros de corridas do mundo. Entre os competidores, um carro de fórmula 1 Italiano arrogante, e até uma corredora brasileira, chamada de Carla Veloso. A prova visa promover um novo tipo de combustível alternativo, que seria a solução para a poluente e escassa gasolina. Mas alguém nos bastidores não quer que o novo produto seja um sucesso, e tem por objetivo acabar com a corrida e todos os seus competidores. Resta a Mate, que se envolve com uma dupla de espiões, a tarefa de salvar o dia.

Como é possível notar, aqui, o Guincho Mate se torna praticamente o protagonista. Isto se explica pelo sucesso do desenho animado Cars toon, que contava pequenas histórias focadas no personagem e era exibido no Cartoon Network. Mate cresceu e apareceu no roteiro, e literalmente ganhou o filme. Com as novas adições ao elenco de motorizados, sobra pouco espaço para os antigos personagens, que ficam relegados a algumas pontas de luxo (com mais destaque para Guido e Luigi). Uma homenagem sincera e tocante é feita pelos animadores a Paul Newman, morto antes do início da produção do filme, e que dava voz ao rabugento Doc Hudson. Sua saída da trama é explicada como deveria ser, e deixará emocionados aqueles que admiravam mais este grande trabalho desta lenda do cinema.

Mostrando que está em uma linha reta acelerando para a perfeição técnica sem derrapar, o estúdio apresenta seu trabalho de animação mais perfeito até aqui. As sequencias em locações como Paris e Londres são tão belas que você diria que os carros estão circulando em ruas e avenidas reais. A beleza das paisagens, enquadradas com planos perfeitos e muito bem delineados, impressionam. Além disso, o som do filme, que já é uma característica campeã do estúdio e reconhecida com indicações praticamente garantidas em todas as cerimônias do Oscar, está perfeito e ainda mais real. Carros 2 é de uma beleza técnica sem igual.

Embora nem este ou seu antecessor tenham força máxima no quesito roteiro, ainda assim o resultado final está muito acima da maioria dos filmes em live-action que vemos por aí. Os personagens são muitíssimos, e todos tem sua chance de brilhar, mesmo os que tem apenas pontas. Soma-se a este fato a excelência dos diálogos, que respeitam a inteligência e sagacidade das crianças. Hoje temos basicamente adultos em miniatura, antenados, uma geração que não quer mais apenas ver personagens fofinhos e tramas sem cérebro. Eles querem se divertir com qualidade, tanto quanto nós, adultos. Não é de estranhar que Carros faça tanto sucesso.

Aos adultos que esperam a chance de levar os filhos ao cinema, não se preocupem. Carros 2 vai divertir, e muito, o dia de vocês. E se houver um tempinho, não deixem de refletir alguns detalhes da história depois de saírem do cinema. Um filme da Pixar, mesmo que feito unicamente com o objetivo de entreter, sempre tem uma mensagem profunda a mais. Basta apenas procurar.

Cotação: ***

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