Crítica: Não me abandone jamais

No mundo atual, os valores humanos tem sido deixados a escanteio, e sobrepujam-se os sentimentos individualistas, como o egoísmo, a intolerância, o preconceito. É impossível não começar este texto sem um pouco de melancolia. O diretor Mark Romanek escolheu uma forma única de apresentar esta dura realidade através da adaptação do romance de Kazuo Ishiguro, autor do também magnífico Vestígios do dia.

O trabalho mais recente do autor não teve medo de ser polêmico e abordou uma questão ética de arrepiar os pelos da nuca dos mais sensíveis. Como cinema, Não Me Abandone Jamais mexe com as emoções de maneira extraordinária, e as questões que discute devem ficar na cabeça do público por muitos e muitos dias.


O excelente trabalho de adaptação realizado pelo roteirista Alex Garland, que anteriormente havia trabalhado com Danny Boyle em filmes como A Praia e Extermínio, confere um grau de profundidade e maturidade para o tema de uma forma que não se vê a muito tempo no cinema inglês. O roteiro é conciso, muito bem estruturado e o diretor soube apresentar a atmosfera melancólica do texto com uma montagem que segue um ritmo lento, mas pontuado por intervalos de sequencias grandiosas e emotivas.

O filme conta a história de Katy, Tommy e Ruth, três jovens que vivem desde a infância isolados do resto do mundo em uma escola no interior da Inglaterra. Criados sob vigilância constante, eles descobrem ser parte de um projeto que cuida de seres humanos exclusivamente para torná-los doadores de órgãos quando atingirem a idade adulta. Conformados com sua dura realidade de existência, resta a eles se entregar ao amor como uma forma de conseguir a liberdade de seguir um rumo diferente em suas vidas.

Não se engane ao pensar que o diretor conduz sua história apelando para clichês ou simplificando a narrativa para o melodrama; apesar de anunciar ainda no início do filme qual é o destino esperado por seus personagens, ele acerta por desenvolver uma personalidade única para cada um deles, que os situa frente ao público e ajuda a criar um sentimento de identificação com suas histórias de vida. Não por acaso, o elenco responde de maneira exemplar, e os atores estão formidáveis em seus personagens.

Não Me Abandone Jamais é uma história de amor totalmente diferente de tudo o que você já viu. Carrey Mulligan, Keira Knightley e Andrew Garfield transmitem de uma forma intensa a inocência e o desejo reprimido de viver de seus personagens. Tanto a escolha das locações quanto o ritmo imposto ao filme são propositalmente formatados para complementarem a história, e você irá notar já nas primeiras cenas que os recursos de linguagem utilizados pelo diretor, mesmo que comuns, caem como uma luva para o que está sendo proposto. O terceiro ato é uma experiência arrebatadora, e os mais sensíveis devem se preparar para uma sessão de lágrimas, que estão longe de ser gratuitas; Mark Romanek controla nossas emoções com a técnica e habilidade de um regente talentoso de orquestra.

Infelizmente, este excelente filme foi visto por pouquíssimas pessoas, o que se explica pelo seu tema pouco ortodoxo, que pode ter afastado o grande público. A verdade é que não há como sair do cinema indiferente ao que foi apresentado neste grande trabalho, a menos que você seja um desses que gosta de se divertir com as tragédias da vida real. Na ficção ou na realidade, o sofrimento humano deveria ser sempre encarado com mais honestidade e seriedade.

Cotação: ****

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