Crítica: O Discurso do Rei

A aproximação entre a TV e o cinema, tanto nos EUA quanto na Inglaterra, tem rendido bons frutos. Hoje é normal surgirem produções televisivas com qualidade semelhante ou mesmo superior à produção cinematográfica. A migração de profissionais, sejam eles astros, roteiristas ou diretores, já é praticamente lugar comum.

Tom Hooper, diretor inglês e cria da televisão, é mais um que está utilizando sua experiência na telinha para ousar vôos mais altos. Entre seus trabalhos mais importantes está John Adams, minissérie que ganhou diversos prêmios e deu um Globo de Ouro para Paul Giamatti.

A experiência com dramas históricos certamente foi fundamental para garantir a entrega de O Discurso do Rei para este jovem diretor. E considerando o resultado final, a decisão foi sábia.


Surgindo de fininho na temporada de premiações que antecede o Oscar, o filme se tornou o grande hit do momento, recebendo diversos prêmios importantes - como o SAG de elenco (que é o equivalente ao Oscar de melhor filme) e o prêmio do sindicato dos diretores para Tom Hooper. Mas se engana quem pensa que todo este burburinho é um exagero da crítica: O Discurso do Rei é cinema de altíssima qualidade.

As doze indicações ao Oscar neste ano são perfeitamente justificáveis. Roteiro, direção, atuações, fotografia, trilha sonora. Tudo está muitíssimo bem apresentado. O apuro técnico da produção salta aos olhos.

A força motriz de O Discurso do Rei está no seu elenco. Alardeada como a atuação mais consistente da carreira de Colin Firth, seu retrato do Rei George VI é muito mais do que um grande momento do ator; trata-se de uma atuação que ficará marcada por muito tempo, graças a forma absolutamente leve e sensível que ele escolheu para apresentá-la. Geoffrey Rush, que dispensa apresentações e rouba cada cena em que aparece, também contribui para tornar ainda mais verossímil a proposta do roteiro. Seu Lionel Logue é um personagem fantástico, construído com genialidade pelo ator. A química entre os dois homens, em princípio tão diferentes, é o maior acerto do filme. Para completar, Helena Bonham Carter mostra que pode interpretar personagens "normais" e apresenta uma Rainha Mãe que é um misto de formalidade e doçura. Não fosse o mais uma vez caricato trabalho de Timothy Spall, que interpreta Winston Churchill, o elenco estaria cem por cento perfeito.

O roteiro de David Seidler é absolutamente correto em todos os aspectos, conseguindo situar perfeitamente o acontecimentos frente ao importante período histórico que retratava, humanizando a figura da intocável família real britânica e garantindo sequencias de diálogos inteligentes e muito bem estruturados, principalmente quando Colin Firth e Geoffrey Rush tem seus embates. Na cena mais importante do filme, quando o Rei George VI finalmente realiza seu discurso de Guerra, outro destaque é a estupenda interação da trilha sonora do maestro Alexandre Desplat. Se o fundo musical já era perfeito durante todo o filme, aqui atinge seu ápice. Desplat é um dos nomes que mais vem crescendo hoje em Hollywood, e seus trabalhos recentes em filmes como O fantástico Sr. Raposo, O Curioso Caso de Benjamin Button e até mesmo no último Harry Potter - onde ele aprimorou de forma sublime a já impressionante trilha sonora criada pelo incomparável John Williams - são credenciais mais do que suficientes para confirmar esta informação.

Londres é uma cidade que favorece a direção de fotografia em qualquer situação. Para um filme de época, então, nem se fala. Danny Cohen havia trabalhado com o diretor em John Adams e entrega um trabalho que explora de forma perfeita os ambientes clássicos da capital britânica. As cenas em locação no Hyde Park explorando a neblina londrina são extremamente belas (por mais clichê que possa parecer). Outro destaque são as sequencias na Abadia de Westminster, cujos enquadramentos ajudam a platéia a captar a dimensão e extrema beleza deste local histórico.

Tom Hooper concorre como melhor diretor naquela que pode ser uma das mais disputadas cerimônias do Oscar na história. Mesmo contando com nomes de peso como David Fincher e Darren Aronofsky na categoria, seu favoritismo alcançado com o prêmio do sindicato dos diretores é perfeitamente justificável. O trabalho em O Discurso do Rei é brilhante.

Se o filme será agraciado com o prêmio máximo da Academia, ainda é um mistério. Mais é fato que dá gosto acompanhar uma temporada pré-Oscar com a qualidade desta de 2011. Qualquer que seja o filme vencedor no dia 27 de fevereiro, será um prêmio bem concedido. E como todo bom inglês, O Discurso do Rei saberá manter a elegância seja com vitória, seja com derrota. God save the King!

Cotação: ****

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Crítica: A Cabana

Crítica: Logan

Crítica: A Bela e a Fera