Crítica: Bruna Surfistinha

Alguns anos atrás, através de um blog, uma garota de programa ficou famosa em todo o país, contando o dia a dia de sua vida nada convencional. Seu nome era Raquel Pacheco, mais conhecida como Bruna Surfistinha. Depois da internet, as histórias da moça chegaram às livrarias, compiladas no livro chamado O doce veneno do escorpião. Ninguém poderia imaginar que um dia a vida da moça viraria um filme de cinema.

Mas aconteceu. Com o lançamento de Bruna Surfistinha, a história da ex-garota de programa ganha as salas do país, e desponta como o primeiro grande lançamento do cinema nacional em 2011.


Mas a trajetória do filme de Marcus Baldini para as telas dos cinemas não foi fácil. Para começar, era preciso vencer o preconceito que uma produção deste tipo poderia enfrentar. Em um país de falsos moralismos como o Brasil, a idéia de que moças de família deixem tudo de lado para se tornarem prostitutas ainda é considerada um tabu. A mais antiga profissão do mundo, no entanto, ainda é extremamente popular. E o diretor aproveita a história desta famosa ex-prostituta para mostrar que nem tudo são flores na vida destas meninas, que deixam a inocência de lado para tornarem-se profissionais do sexo em busca do reconhecimento e do sucesso que muitas não conseguiriam caso vivessem suas vidas normais.

É claro que o tema não é fácil, e teria que ser apresentado de forma mais palatável para o grande público. E o roteiro funciona muito bem neste ponto, acrescentando situações quase cômicas ao dia a dia de Raquel, como o relacionamento com as colegas prostitutas e as estranhezas de alguns "clientes". Embora as cenas tendam para o riso fácil, se melhor avaliadas, podem ser consideradas até mesmo dramáticas. Em nenhum momento o filme defende a prostituição como forma de vida, muito pelo contrário. Ele aponta de forma eficiente as mazelas sociais que levam algumas moças a este tipo de vida, sem tomar partido ou apontar culpados.

Deborah Secco disse muitas vezes que Bruna Surfistinha era o personagem de sua carreira. Não é difícil entender a razão deste comentário. No papel da ex-garota de programa, a atriz tem a oportunidade de mostrar toda a sua sensualidade, mas também seu lado mais frágil - principalmente nos flashbacks que mostram como era a vida da moça antes de se tornar prostituta. A atriz aproveitou muito bem a chance de viver este complexo personagem, e sua interpretação vigorosa dá mais consistência ao filme.

Bruna Surfistinha não traz nada de novo ao combalido cinema nacional, mas acerta por tratar de um tema polêmico de maneira séria, sem apelar para o melodrama. Afinal de contas, existem muitas outras meninas se prostituindo por este Brasil afora, sem enxergar outro rumo para suas vidas. Não importa se são Brunas, Dianas, Martas ou Marias. São mulheres, moças, até meninas. Raquel Pacheco pode até não ser o seu melhor exemplo, mas quem disse que existe apenas uma visão do que é certo ou errado? O simples fato da história de uma prostituta que conseguiu dar um novo rumo para sua vida chegar aos cinemas já nos mostra que mudar é possível. Este é o tipo de função social que faz do cinema mais do que apenas uma forma de arte.

Cotação: **

Comentários

  1. Ulalá. Nunca poderia imaginar que vc faria uma crítica positiva a esse filme...

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  2. Imaginei que seria um projeto totalmente comercial. Me enganei, que bom!

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