Crítica: Um Homem Sério

Na filmografia dos irmãos Coen, é difícil dizer qual seria seu filme mais esquisito. Na verdade, achei que depois de Queime depois de ler, seria muito complicado os cineastas apresentarem uma obra com nível semelhante de imprevisibilidade. Não é que eles conseguiram?

Um homem sério é um filme típico daquela premissa do "ame ou odeie". Pra começar, não foi feito para o grande público, isso é óbvio. Em alguns momentos, parece, não foi feito nem para o público acostumado com o trabalho dos diretores. Acompanhando a rotina de um grupo de personagens judeus em um subúrbio americano, são utilizados sem piedade termos e costumes sem em nenhum momento alguém parar para explicar o que é tudo aquilo. E não é mesmo necessário. Utilizando o humor negro que já lhes é peculiar, os diretores levam o espectador a refletir sobre o dia-a-dia, sobre as situações que passamos em nossas vidas. Por mais que achemos que algumas coisas que nos acontecem tem algum propósito, a mensagem é clara: não adianta queimar a cabeça e imaginar o porque de tudo. O objetivo é deixar o espectador tão perdido quanto o protagonista.


O ator Michael Sthulbarg consegue uma proeza notável, apresentando uma atuação cheia de nuances, no entanto sem nunca despencar para o caricato. Seu personagem, mesmo cercado de pessoas detestáveis - a esposa adúltera; o filho maconheiro; a filha fútil; o irmão problemático - mantém-se firme na premissa de ser manter como um "homem sério", dando o suporte a família, apesar de obrigado a morar fora de casa pela mulher e o amigo que estão tendo um caso; e se mantendo firme e profissional no emprego onde não é devidamente reconhecido. É uma crítica clara dos Coen ao atual paradigma social. O que fica ainda mais evidente se considerarmos que o filme se passa nos EUA da década de 70.

Muitas teorias podem ser levantadas sobre o filme, principalmente se levarmos em consideração sua cena inicial e o último ato. Novamente os diretores mostram seu talento em nos confundir; Um homem sério é também um filme sobre o nada. Sobre a super-valorização de opiniões. Sobre como podemos nos cegar frente a alguns ideais religiosos, e porque não, sociais. O próprio protagonista se questiona todo o tempo, frente as coisas estapafúrdias que acontecem ao seu redor. Os rabinos resumem a idéia geral do filme nas geniais sequencias em que tentam explicar a razão dos acontecimentos da vida: muitas palavras sem sentido e um desejo enorme de resignação pelos ouvintes. No caso, a bola da vez era o público do cinema.

Cotação: ***

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Crítica: Logan

Crítica: A Cabana

Crítica: A Bela e a Fera